Levantamento foi feito segundo índice criado pelo Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da GHV
O superendividamento das famílias brasileiras ganhou destaque recente ao revelar um descompasso entre indicadores macroeconômicos positivos e a percepção de bem-estar da população. Nesse contexto, pesquisadores do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira (FGVcemif) da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) desenvolveram o Índice de Desconforto de Crédito (IDC), uma nova métrica baseada em dados do Banco Central que captura os efeitos do uso do crédito sobre as famílias. O indicador combina comprometimento de renda, inadimplência e qualidade do crédito, oferecendo uma leitura mais abrangente da pressão financeira.
Durante a pandemia, o IDC atingiu níveis muito baixos, em torno de 0,02 (2% do máximo da série), refletindo a queda simultânea dessas três dimensões, especialmente da inadimplência.
No período pós-pandemia, observa-se uma reversão acentuada: o IDC sobe rapidamente, alcançando 0,9 — o que significa que o nível de desconforto financeiro das famílias atingiu cerca de 90% do maior valor possível do desconforto (IDC) dentro da série histórica.
Vale destacar que essa trajetória de alta foi temporariamente interrompida pelo programa Desenrola, que reduziu o índice para cerca de 0,67, mas o efeito se mostra transitório. Após o encerramento do programa, em 2024, o desconforto voltou a crescer, atingindo 0,94 em janeiro de 2026 ou 94% do maior valor possível do desconforto (IDC) dentro da série histórica.
“A maior novidade do índice é considerar a qualidade de crédito, medida pela participação de modalidades de crédito muito caras, como cartão de crédito rotativo e empréstimo pessoal não consignado, mostrando queOu seja, a composição de crédito importa quando se analisa o superendividamento”, afirma Lauro Gonzalez.
O professor ressalta ainda que programas como o Desenrola tendem a produzir apenas alívio temporário. “Sem enfrentar as causas estruturais do superendividamento, o risco é permanecer em uma dinâmica recorrente de medidas paliativas — um verdadeiro ‘enxuga gelo’”, acrescenta Lauro Gonzalez.
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