Como longos períodos sentado em voos ou viagens terrestres podem favorecer a formação de coágulos e quais estratégias ajudam a manter a circulação ativa e segura.
Ficar parado por muito tempo durante deslocamentos extensos representa um risco silencioso que vai além do cansaço físico. De acordo com a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), o risco de desenvolver uma Trombose Venosa Profunda (TVP) pode dobrar em trajetos que duram mais de quatro horas, seja em aviões, ônibus ou carros. O fenômeno ocorre porque a falta de movimento das pernas prejudica o retorno do sangue ao coração, permitindo que o líquido se estagne e forme coágulos que podem obstruir as veias ou, em casos mais graves, se desprender e atingir os pulmões.
A anatomia humana não foi projetada para a inércia absoluta, especialmente em ambientes de baixa pressurização ou espaços confinados. Segundo o cirurgião vascular Josualdo Euzébio, a musculatura da panturrilha funciona como um segundo coração para o corpo e, quando ela é desligada pela imobilidade, o sistema circulatório perde seu principal mecanismo de propulsão. “A compressão das veias na parte de trás das coxas contra o assento e a dobra constante dos joelhos criam um gargalo para o fluxo sanguíneo, aumentando a viscosidade do sangue e facilitando a formação de trombos”, explica o especialista.
Embora o risco exista para qualquer passageiro, certos fatores de estilo de vida e condições prévias podem acelerar esse processo. O uso de hormônios, o tabagismo e a desidratação durante o percurso são elementos que tornam o sangue mais suscetível à coagulação. O médico ressalta que muitos viajantes negligenciam a ingestão de água para evitar idas ao banheiro, o que é um erro estratégico perigoso. “O sangue bem hidratado flui com mais facilidade, por outro lado, o consumo excessivo de álcool e café durante o trajeto pode desidratar o organismo e elevar as chances de complicações vasculares”, alerta
A prevenção, felizmente, é simples e baseada em pequenas intervenções na rotina de viagem. Movimentar os pés como se estivesse acelerando um carro ou fazendo movimentos circulares com os tornozelos a cada hora já ajuda a bombear o sangue acumulado. Para quem possui histórico familiar ou varizes aparentes, o uso de meias de compressão elástica, sob orientação profissional, é uma das medidas mais eficazes para garantir que a pressão nas veias permaneça estável. “O segredo está em não permitir que o corpo entre em um estado de repouso total; levantar para caminhar no corredor do avião ou fazer paradas estratégicas na estrada é vital”, orienta o angiologista.
É fundamental que o passageiro fique atento aos sinais de alerta que podem surgir logo após o desembarque ou até alguns dias depois. Inchaço repentino em apenas uma das pernas, dor persistente na panturrilha que se assemelha a uma cãibra forte e vermelhidão local são sintomas que exigem busca imediata por auxílio médico. Josualdo Euzébio reforça que a identificação precoce evita que um quadro de trombose evolua para uma embolia pulmonar, uma condição crítica. “A viagem deve terminar com boas memórias, e não com uma internação; por isso, ouvir os sinais do corpo e manter a circulação ativa é o melhor passaporte para uma jornada segura”, conclui.
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