Paulo de Vasconcellos Filho*
Se a sua empresa funciona há dez anos, considerando apenas os dias úteis, nesse período foram tomadas, em média, dois milhões e quatrocentas mil decisões — estratégicas, táticas e operacionais.
Sim, parece exagero. Eu também achei. Mas as pesquisas indicam que a empresa brasileira, diante da intensa burocracia estatal, toma em média 1.000 decisões por dia — sendo a maioria operacionais. Ainda assim, todas elas, sejam operacionais, táticas ou estratégicas, geraram algum impacto — positivo ou negativo — nos resultados da sua empresa.
Mil decisões por dia, em 20 dias úteis no mês, resultam em 20.000 decisões mensais.
Em 12 meses, são 240.000.
Em 10 anos, alcançamos a média de 2.400.000 decisões.
Agora, vamos considerar que 90% delas trataram de situações recorrentes.
Ainda assim, sua empresa tomou, em média, 240.000 decisões “novas” nos últimos dez anos.
E se sua empresa tem apenas cinco anos de atividade?
Mesmo assim, foram cerca de 120.000 decisões “novas”.
Tomemos como exemplo a centenária Drogaria Araújo, que em 20 de março de 2026 completou gloriosos 120 anos. Desde sempre assumindo o desafio de “encantar o cliente”, explicitado em sua Missão — desafio que poucas empresas declaram e, mais ainda, conseguem cumprir.
Sou suspeito para falar da “nossa” Araújo. Mais do que cliente, sou fã.
E não devo estar sozinho: em 2025, a empresa faturou R$6 bilhões, com mais de 360 lojas distribuídas por mais de 60 cidades mineiras, atendendo mais de 60 milhões de clientes por ano.
Ao longo desses 120 anos, a equipe da Araújo tomou, em média, 2.880.000 decisões “novas”.
Você concorda que existe um verdadeiro tesouro de informações nesse processo decisório — inclusive na sua empresa?
A pergunta é:
Como não perder esse tesouro e utilizá-lo para aprimorar as próximas centenas de decisões?
Na edição de janeiro de 2026 da Revista MercadoComum, publicamos, em parceria com os consultores Júlio Miranda e Heles Soares, o artigo “Decisões Estratégicas: como otimizar escolhas que definem o futuro da sua empresa.”
Nesse artigo, sugerimos que sua empresa estruture um processo para registrar:
As decisões tomadas e as situações que as demandaram.
Os critérios utilizados para decidir.
As fontes de informação — internas e externas — que fundamentaram as decisões.
Os resultados positivos e negativos gerados.
As lições aprendidas no processo decisório.
Para estimular o resgate e o uso efetivo dessas riquíssimas informações — que, em tempos de fake news, não podem ser questionadas quanto à sua veracidade — sugerimos a adoção de uma metodologia testada e aprovada desde 1920 (há 105 anos) na conceituada Harvard Business School.
Em 1973, a Fundação João Pinheiro, vinculada à SEPLAN de Minas Gerais, firmou convênio com a Columbia Business School, da tradicional Columbia University, fundada em 1754, trazendo para o Brasil o MBA da Columbia em formato compacto. Do modelo original de dois anos, foi adaptado para um ano.
O programa recebeu o nome de CEA — Curso de Especialização em Administração.
Tivemos a honra de participar da turma de 1974, na qual os famosos cases fizeram enorme sucesso. Todos foram desenvolvidos na Harvard Business School, retratando grandes empresas americanas e europeias.
Geralmente, os casos começavam assim:
“No outono de 1965, o Vice-Presidente de Marketing da Multinacional X…”
Particularmente — e sem qualquer crítica — eu pensava:
não temos outono, e tampouco Vice-Presidente de Marketing na grande maioria das empresas brasileiras.
Aprendemos muito. Mas era necessário tropicalizar as lições.
Cinquenta e dois anos se passaram. E então imaginei como sua empresa poderia utilizar essa consagrada metodologia criada pela Harvard e hoje adotada por 99% das business schools do mundo.
Recomendamos a aplicação do método de casos, com duas adaptações fundamentais:
A sua empresa será a protagonista.
O texto deverá expor apenas:
A situação que demandou a decisão;
As informações disponíveis naquele momento;
Os critérios utilizados, incluindo os Princípios & Valores vigentes à época e a Cultura organizacional.
No método original, geralmente também são apresentados a decisão tomada e seus efeitos.
Aqui está o desafio: nos treinamentos internos, sua equipe deverá escolher as soluções com base exclusivamente nas informações disponíveis no momento em que a decisão foi originalmente tomada.
Essas escolhas deverão ser comparadas com aquelas efetivamente realizadas à época.
Os resultados também devem ser analisados, permitindo identificar as principais lições aprendidas — lições que, em algum momento, poderão ser decisivas no intenso processo decisório que acontece diariamente na sua empresa.
Como bom mineiro de Belzonte, sugeri usar nosso mineirês e chamar essa metodologia de: Causos da sua empresa.
*Consultor e Conselheiro em Estratégia
“Os artigos publicados nesta edição são de responsabilidade exclusiva dos autores e não expressam, necessariamente, a opinião dos editores da publicação.
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