Roberto Brant*
A tramitação e o próprio debate sobre a mudança da Constituição para reduzir a jornada de trabalho dos empregados do setor privado da economia, expõem cruamente algumas das piores misérias da cultura política brasileira. Todos devemos desejar que as pessoas trabalhem menos e ganhem mais. Mas, para que isto aconteça, discursos ou leis não bastam. Se bastassem, o mundo não teria problemas.
A primeira miséria de nossa cultura política consiste em ignorar que renda e riqueza dependem da produção do setor privado. Tudo o que o Estado dispõe, para financiar os serviços que presta e os benefícios que distribui, é extraído da produção das empresas e das pessoas. Sem eles nem sequer haveria Estado. Portanto, há um limite para o Estado apropriar-se das rendas privadas ou para impor novos custos à produção. Quando estes limites são ultrapassados, o resultado é estagnação econômica e mais pobreza para todos. Nossa América Latina está cheia destes exemplos. Na Argentina, um líder e uma política tornaram pobre um dos países mais ricos do mundo. E o caminho de volta, além de incerto, é sempre penoso.
Outra miséria é o oportunismo e a falta de espírito público de governantes e legisladores. A ideia de mudar a jornada de trabalho à força, por efeito de lei, surgiu inteiramente do nada. Não há qualquer pressão social ou mesmo conflitos no mundo da produção para esta urgência de uma nova legislação. É uma ideia gerada exclusivamente nos laboratórios de marketing político, para fortalecer a campanha eleitoral do Presidente da República e dar discurso social a deputados e senadores, cujo principal propósito na vida é se reelegerem, como se já não bastassem para eles os bilhões de emendas do orçamento, destinadas exclusivamente a este fim, afora outros propósitos menos transparentes. Por esta lógica, a única prioridade do país é reduzir a jornada de trabalho e só serve se for agora. Outros problemas não existem, ou podem esperar. O mais triste é que Governo e oposição se dão as mãos alegremente neste caso, embora discordem de tudo o mais que possa importar para o país.
Finalmente, e isto é o pior de tudo, a legislação que se pretende aprovar é um grande retrocesso diante da reforma da legislação trabalhista de 2017, cujo principal avanço foi estabelecer que os acordos coletivos prevalecerão sobre o que está legislado. A Constituição e as leis brasileiras estabelecem apenas uma jornada máxima, com o intuito de poupar os trabalhadores de jornadas excessivas. A partir daí, o campo está livre para que, em mesas de negociações coletivas, empregadores e empregados negociem jornadas menores ou mais flexíveis, conforme as peculiaridades de cada setor produtivo. Uma regra única para toda a diversidade do país e de nosso universo produtivo é simplesmente impraticável.
O historiador econômico e prêmio Nobel de economia Joel Mokyr mostrou que ideias e cultura fazem toda a diferença para o desenvolvimento econômico e explicam muito as diferenças de prosperidade entre as nações. Para melhor entender o que acontece, gosto de classificar as sociedades em duas categorias de cultura: umas tem uma natureza estatutária e outras tem uma natureza contratual. Nas sociedades estatutárias, as pessoas confiam pouco umas nas outras e por isto tem receio das negociações e de acordos, preferindo jogar segundo regras impostas por uma autoridade. Essas sociedades, porque operam com regras fixas, tem muita dificuldade de se adaptarem às mudanças e vão ficando para trás.
As sociedades contratuais pedem à autoridade apenas um marco geral para demarcar o ambiente em que vão viver e se relacionar, ficando franqueado aos indivíduos a busca do seu próprio interesse no diálogo com os interesses dos outros. São sociedades adaptativas, porque abertas para as mudanças e não arrastam correntes pesadas no seu caminho para o novo e o diferente.
Os movimentos do governo e do Congresso neste momento consolidam a natureza autoritária do Estado brasileiro, nos empurrando para mais longe da cultura do desenvolvimento e da liberdade.
*Advogado, ex-deputado federal e ex-ministro da Previdência Social
“Os artigos publicados nesta edição são de responsabilidade exclusiva dos autores e não expressam, necessariamente, a opinião dos editores da publicação.
Rota
Newsletter MercadoComum - Economia, Mundo Empresarial, Opinião e outros....
Telefone: (0xx31) 3281-6474
Fax: (0xx31) 3223-1559
Email: newsletter@mercadocomum.com
URL: https://www.mercadocomum.com
Domingo Aberto 24 horas Abra agora Segunda Aberto 24 horas Terça Aberto 24 horas Quarta Aberto 24 horas Quinta Aberto 24 horas Sexta Aberto 24 horas Sábado Aberto 24 horas



SEO Marcos Muniz - Especialistas em tráfego orgânico Google AI https://www.searchengineoptimization.com.br/