Carlos Alberto Teixeira de Oliveira*
“No dia 9 de agosto de 1976, uma notícia correu o país: Juscelino Kubitschek morrera num acidente de estrada. Amigos e jornalistas se precipitaram à Fazenda JK, onde não havia telefone – e o encontraram vivo, sorridente. ‘Estão querendo me matar, mas ainda não conseguiram’, disse ele.
Duas semanas depois, no final da tarde de 22 de agosto, quando a notícia voltou a correr, era verdade: a poucos dias de completar 74 anos, o ex-presidente havia morrido, às 17h55, num acidente no quilômetro 165 da via Dutra, quando viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro.
Segundo o inquérito policial, o Chevrolet Opala 1970 em que ia o ex-presidente, conduzido por Geraldo Ribeiro – seu motorista desde o primeiro dia como prefeito de Belo Horizonte, em 1940 –, foi atingido, por trás, por um ônibus. Desgovernado, atravessou o canteiro central e, na outra pista, foi apanhado, de frente, por uma carreta.
Dúvidas surgidas naquela tarde nunca foram esclarecidas. Poderia tratar-se não de acidente, mas de atentado. O caso foi reaberto quase vinte anos depois, sem que nenhuma evidência disso tenha sido encontrada.
Sem endossar a tese de atentado, o escritor Carlos Heitor Cony chamou atenção para o fato de que as três maiores lideranças civis brasileiras desapareceram no espaço de poucos meses, todas em circunstâncias no mínimo estranhas, num momento em que o governo do general Ernesto Geisel promovia um lento – lentíssimo – movimento de retorno à democracia. Carlos Lacerda se internou com uma gripe forte, recebeu uma injeção e morreu. João Goulart, que teria morrido de infarto, foi achado com um travesseiro sobre o rosto.
Anos mais tarde desvendou-se parcialmente um plano conjunto de ditaduras militares do continente sul-americano, a tenebrosa Operação Condor, para eliminar opositores incômodos. Um deles, o chileno Orlando Letelier, ex-chanceler do governo do presidente socialista Salvador Allende, foi assassinado em Washington a 21 de setembro de 1976. Embora não haja provas, há quem sustente que JK, morto poucos dias antes de Letelier, e João Goulart, alguns meses depois, teriam sido, como ele, vítimas da Operação Condor.
‘Democracia neste país, só depois de minha morte’, dissera JK ao deputado Carlos Murilo às vésperas do acidente que o matou. ‘Eles têm muito medo de mim’, acrescentou.”
O relatório que concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi morto pela ditadura militar em 1976 foi aprovado no dia 29 de maio, pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).
A aprovação se deu por maioria dos votos do colegiado, órgão federal criado em 1995 para reconhecer vítimas políticas da ditadura militar e esclarecer casos de mortes e desaparecimentos ocorridos entre 1961 e 1988.
A conclusão representa uma reviravolta em um dos episódios mais controversos da história política brasileira. Até então, a versão oficial apontava que JK havia morrido após o carro em que viajava perder o controle e colidir com uma carreta na Via Dutra, em 22 de agosto de 1976.
O entendimento foi mantido por investigações conduzidas durante a ditadura, por uma comissão da Câmara dos Deputados em 2001 e, também, pela Comissão Nacional da Verdade, em 2014.
O novo relatório sustenta que há indícios consistentes de atentado político. A análise se apoia principalmente em investigações posteriores conduzidas pelo Ministério Público Federal e pelas comissões da verdade de São Paulo e Minas Gerais, que questionaram a versão de que um ônibus da Viação Cometa teria atingido o Opala de JK antes da colisão fatal.
A relatora Maria Cecília Adão vem trabalhando no caso desde novembro de 2024. Com mais de 5.000 páginas, o relatório foi feito a partir de diversos elementos públicos, como um inquérito do Ministério Público Federal (MPF), de 2019.
‘A premissa na qual muitos se baseavam para justificar o acidente como fatalidade, ou seja, a batida de um ônibus na traseira do veículo, jamais ocorreu’ afirmou, em nota, o Ministério Público Federal (MPF) sobre a principal conclusão do relatório.
*Texto extraído da Coletânea de 3 volumes – 2.336 páginas, intitulada JK: Profeta do Desenvolvimento – Exemplos e Lições ao Brasil do Século XXI, de minha autoria e publicada por MercadoComum
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