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title: &quot;Águas e leveduras&quot;
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author: Nome do Admin
date: 2014-04-25T00:00:00-03:00
categories: [Cerveja &amp; Cia, z_impresso]
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# Águas e leveduras

Como parte do objetivo de difundir a cultura cervejeira, finalizamos a sÃ©rie soÂ­bre ingredientes, publicada nas colunas das duas ediÃ§Ãµes anteriores (LÃºpulo e GrÃ£os), abordando agora as Ãguas e as Leveduras, elementos menos famoÂ­sos mas fundamentais no processo de produÃ§Ã£o da cerveja.

 **Ãguas **

 Mesmo quem nÃ£o Ã© profundo conhecedor sabe da histÃ³rica fama de cidades brasileiras como RibeirÃ£o Preto, Pirapora e PetrÃ³polis como fornecedoras de Ã¡gua de qualidade para produÃ§Ã£o de cerveja. Em outras partes do mundo, sÃ£o tambÃ©m conhecidas por isso cidades como Pilsen (RepÃºblica Tcheca), Munique (Alemanha), Dublin (Irlanda) e Burton upon Trent (Inglaterra).

 Nas cervejarias, a Ã¡gua Ã© usada no processo de produÃ§Ã£o do mosto, solubiÂ­lizando o malte moÃ­do. Com isso, proporciona condiÃ§Ãµes ideais para a transÂ­formaÃ§Ã£o do amido contido nos grÃ£os de malte em aÃ§Ãºcares, que irÃ£o ser fermentados na sequÃªncia do processo. A Ã¡gua Ã© o principal ingrediente da cerveja, representando de 90 a 95% do seu volume final. Uma cervejaria conÂ­some entre cinco e 10 litros desse lÃ­quido para fabricar um litro do produto.

 Uma Ã¡gua com caracterÃ­sticas inadequadas pode comprometer seriamente o aroma e paladar de uma cerveja, descaracterizar o estilo da bebida que se quer fabricar e reduzir o tempo da sua vida Ãºtil. Sabendo disso, os bons cervejeiros chegam ao ponto de ser mais exigentes que a prÃ³pria legislaÃ§Ã£o sanitÃ¡ria com relaÃ§Ã£o Ã Ã¡gua que utilizam. Ela deve ser bem filtrada para retirar impurezas, nÃ£o ter sabor e cheiro, estar livre de cloro e outras substÃ¢ncias utilizadas como desinfetantes.

 Antes do desenvolvimento das modernas tÃ©cÂ­nicas de bioquÃ­mica, que permitem alterar as propriedades da Ã¡gua e adequÃ¡-la Ã receita a ser produzida, atÃ© hÃ¡ pouco tempo a proÂ­ximidade de uma fonte de qualidade era fator determinante para a instalaÃ§Ã£o das fÃ¡bricas. Isto fez com que, atÃ© hoje, algumas regiÃµes sejam consideradas tradicionais na produÃ§Ã£o de determinados tipos de cerveja, umas mais encorpadas, outras amargas ou mais leves.

 Originado na cidade de mesmo nome, localiÂ­zada na BavÃ¡ria, RepÃºblica Tcheca, o estilo PilÂ­sen, por exemplo, requer o uso de Ã¡gua com pouca mineralizaÃ§Ã£o e baixa alcalinidade. JÃ¡ as Stouts, caracterÃ­sticas de DuÂ­blin, Irlanda, exigem Ã¡gua com elevada alcalinidade e teor de bicarbonatos, enquanto que as Pale Ale inglesas, cujos exemplares mais conhecidos vÃªm da regiÃ£o de Burton upon Trent, alÃ©m do lÃºpulo, devem seu carÃ¡ter amargo tambÃ©m ao alto teor de sulfato presente na Ã¡gua dessa Ã¡rea.

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 Outra cidade famosa por suas Lager claras Ã© Dortmund, Alemanha. Sua Dortmund Export Ã© menos lupulada que uma Pilsen, com aromas de malte mais ressaltados, para o que contribuem os minerais presentes na Ã¡gua tÃ­pica da regiÃ£o. Em Viena, Ã© Ã¡gua Ã© similar Ã de Dortmund, embora com nÃ­veis menores de cÃ¡lcio, sÃ³dio e cloretos, o que dÃ¡ mais corpo Ã cerveja local. Maltes mais escuros sÃ£o adicionados, resultando nas famosas Lager avermelhadas. JÃ¡ em Munique, a Ã¡gua tem pouco teor mineral, embora a alcalinidade seja elevada, fazendo com que as Dunkel, Oktoberfest e mesmo as Bock sejam suaves, apesar da cor mais forte vinda do uso de maltes escuros.

 **Leveduras **

 As leveduras, micro-organismos unicelulares microscÃ³picos, sÃ£o elementos fundamentais no processo cervejeiro mas pouco conhecidos pela maioria das pessoas. Durante o processo de fermentaÃ§Ã£o, atuam sobre os aÃ§Ãºcares preÂ­sentes no malte, produzindo Ã¡lcool, gÃ¡s carbÃ´nico e uma grande quantidade de compostos intermediÃ¡rios fundamentais para o sabor e aroma da cerveja.

 O nome desse fungo Ã© Saccharomyces, sendo mais usadas pelos produtores as espÃ©cies S. cerevisae, S. carlsbergensis ou S.uvarum. No caso das cervejas tipo Lambic a fermentaÃ§Ã£o Ã© feita espontaneamente por leveduras selvagens trazidas pelo ar e que fermentam o mosto cervejeiro.

 SÃ£o dois os tipos de leveduras utilizados na produÃ§Ã£o de cerveja: as tipo Ale ou de alta fermentaÃ§Ã£o (cuja temperatura Ã³tima de fermentaÃ§Ã£o estÃ¡ entre 15 e 25 graus centÃ­grados) e as leveduras Lager, ou de baixa fermentaÃ§Ã£o (entre 9 e 15 graus). As primeiras fermentam num perÃ­odo entre 4 a 8 dias, produzindo aromas frutados e condimentados, tÃ­picos das cervejas Ale (Pale Ales, Porters, Stouts), com teor alcoÃ³lico variando de 3 a 5,5% e de 6 a 10% nas cervejas belgas de abadia. JÃ¡ as segundas, que precisam de 5 a 14 dias para a fermenÂ­taÃ§Ã£o, dÃ£o origem a aromas mais neutros e leves como as do grupo Lager, onde se sobressai o estilo Pilsen, com teor alcoÃ³lico entre 4 e 5%. Estilos como Bock e Doppelbock podem alcanÃ§ar atÃ© 10%.

 Algumas cervejas, como as wits belgas e as britÃ¢nicas refermentadas na garÂ­rafa, sÃ£o envasadas sem filtragem ou com adiÃ§Ã£o de leveduras extras. Nesse caso, a fermentaÃ§Ã£o final serÃ¡ no prÃ³prio vasilhame e o lÃ­quido pode ficar turvo. Outros mÃ©todos, como o champenoise, tambÃ©m fazem refermentaÃ§Ã£o na garÂ­rafa.

 Por serem fundamentais na formaÃ§Ã£o do aroma das cervejas, o meio de culÂ­tura de um determinado tipo de levedura deve ser a mais puro possÃ­vel, isento de outros tipos de leveduras, bactÃ©rias e leveduras selvagens. AlÃ©m de serem elementos chave na fabricaÃ§Ã£o da cerveja, as leveduras sÃ£o importantes fontes de vitamina B e de proteÃ­nas, com a grande vantagem de nÃ£o possuir gordura ou colesterol.

 O Brasil ainda Ã© totalmente dependente de leveduras importadas, o que deixa a sua indÃºstria cervejeira numa posiÃ§Ã£o delicada. Muitos especialistas tÃªm se dedicado ao assunto, entre elas a biÃ³loga Gabriela Montandon, da Cervejaria Inconfidentes, de [**Belo Horizonte**](https://mercadocomum.com/belo_horizonte_/), que desenvolve uma linha de pesquisa cujo principal objetivo Ã© diminuir os custos dessa matÃ©ria-prima, valorizando a geÂ­nuinidade das linhagens de leveduras brasileiras para produzir cervejas com aspectos sensoriais diversificados.

 Ela vem se dedicando ao assunto desde 2012 e, atualmente, divide o seu douÂ­torado entre o Departamento de MicroÂ­biologia do ICB/UFMG e o Laboratory of Enzyme, Fermentation and Brewing TecÂ­nhnology, KU Leuven â€“ Campus Gent KaHo Sint Lieven na BÃ©lgica, onde estuÂ­da linhagens de leveduras originÃ¡rias da coleÃ§Ã£o do LaboratÃ³rio de Taxonomia, Biodiversidade e Biotecnologia de FunÂ­gos da UFMG, pesquisando a viabilidaÂ­de do seu uso na indÃºstria cervejeira.