Carlos Alberto dos Santos*
A cultura africana reúne inúmeros provérbios que atravessam gerações e nos convidam a refletir sobre a vida. Um deles diz: “A borboleta que esbarra em espinhos rasga as próprias asas.” Uma imagem simples, mas carregada de sabedoria. O provérbio nos alerta para algo que nem sempre estamos dispostos a reconhecer: nem toda dificuldade precisa ser enfrentada de qualquer maneira. Há obstáculos que exigem coragem, outros pedem paciência, e alguns talvez nos aconselhem simplesmente a mudar de caminho. Insistir em algo que se apresenta como perigoso ou inadequado pode nos ferir e, pior, danificar justamente aquilo que nos permite seguir adiante.
Vivemos, porém, em uma sociedade que costuma associar coragem à capacidade de vencer sempre. Somos estimulados a demonstrar força, superar limites e provar nossa potência diante das adversidades. Em determinadas situações, chegamos a acreditar que desistir, recuar ou mudar de direção é sinal de fraqueza. Essa lógica pode nos conduzir ao perigoso jogo do vale-tudo: passar por cima das dificuldades e, algumas vezes, até de outras pessoas que aparecem em nosso caminho, sobretudo quando acreditamos que elas ameaçam nossas conquistas ou nosso lugar de destaque.
É nesse momento que orgulho, vaidade e desejo de reconhecimento podem nos tornar cegos. A vontade de vencer a qualquer preço nos impede de perceber que algumas batalhas podem custar caro demais. Costumo dizer que não viemos fazer um piquenique no planeta terra. Viver pressupõe encontrar barreiras, desvios, perdas e frustrações que não estavam no mapa. E aquilo que para alguém parece apenas um pequeno monte de pedras pode representar, para outro, uma montanha quase intransponível. Cada pessoa carrega uma história, uma estrutura emocional e uma capacidade diferente de lidar com os desafios.
Talvez, por isso, a verdadeira coragem não esteja apenas em enfrentar os obstáculos, mas também em reconhecer os próprios limites diante deles. Há momentos em que avançar é necessário. Há outros em que recuar é sabedoria. E existem situações em que o mais sensato é simplesmente encontrar outro caminho. A borboleta não precisa provar sua força enfrentando os espinhos. Precisa apenas preservar suas asas. Talvez essa seja uma das grandes lições da vida: nem todo obstáculo foi colocado diante de nós para ser vencido. Alguns estão ali para nos ensinar a olhar, compreender e escolher por onde seguir. Ou como diz a sabedoria africana: é preciso reconhecer os espinhos antes de bater de frente com eles.


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