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title: &quot;Consolo &#8211; CRÔNICAS &#8211; Olavo Romano&quot;
url: https://mercadocomum.com/consolo-cronicas-olavo-romano/
author: Carlos Alberto Teixeira de Oliveira
date: 2022-07-27T19:41:14-03:00
categories: [Cultura]
tags: [Consolo, Consolo - CRÔNICAS - Olavo Romano, CRÔNICAS, Olavo Romano]
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# Consolo &#8211; CRÔNICAS &#8211; Olavo Romano

[![Consolo - CRÔNICAS - Olavo Romano](https://www.mercadocomum.com/wp-content/uploads/2022/07/Olavo-Romano-300x300.png)](https://www.mercadocomum.com/)Consolo – CRÔNICAS – Olavo Romano remédio de amostra. [**Expediente**](https://mercadocomum.com/expediente/) quase no fim, Doutor Sebastião foi lá fora, viu chegando um casal da roça. Gente muito pobre, mal alimentada e, era capaz de apostar, cheia de cisma com comida: isto assim-assim é quente, o povo diz que aquilo é reimoso, tem muita mistura que mata na hora: manga com leite, por exemplo, é bater e valer. O médico despachou o cliente anterior, que se queixava de uma bruta dor no peito respondendo na cacunda. Depois mandou entrar o casal de roceiros. Muito encabulados, ficaram em pé, o homem rodando o chapéu com as das mãos; ela, mirradinha, olhos pregados no marido, vendo o que ele ia fazer. O convite do Doutor Sebastião resolve a dúvida:

 — Vamos sentar. Fiquem à vontade.

 Sentam sem fazer barulho, permanecem em silêncio. O médico pergunta:

 — Então, como vão as coisas?

 — Remando. Como Deus é servido – responde ele.

 — Qual é o problema

 — E ela, Doutor.

 — O quê que a senhora sente – indaga o médico.

 — A pobre anda numa patifaria que faz dó – responde o marido, tomando a dianteira.

 O médico insiste com a cliente:

 — Então vamos ver. Como é mesmo o nome da senhora

 — É Domitila. Domitila Maria de Jesus.

 — Muito bem. Idade

 A mulher, devagar, vai desembuchando: tem quase cinquenta, completa dentro de dois meses. Queixa de desânimo, falta de apetite, uma fraqueza na cabeça sem arrumação. Vira e mexe o marido entra no meio, dá um palpite, corrige a fala dela. Paciente, o médico mede a pressão, examina a língua, os olhos, a garganta. Manda a mulher deitar numa cama, apalpa, pergunta mais uma porção de coisas, escuta, escuta. Por fim, senta de novo, pega papel e caneta, começa a escrever a receita. Acaba e diz, bem explicado, para os dois:

 — Dona Domitila anda meio anêmica. O organismo precisa de um reforço para reagir. Receitei um fortificante, toma de oito em oito horas três vezes ao dia. Essas vitaminas também vão ajudar. E tem as injeções. Alguém lá por perto faz injeção na veia… Pois o senhor pede a esse compadre de vocês, aplica em dias alternados, dia sim, dia não. Entenderam?

 Disseram que sim, ele deu umas amostras, só a injeção é que não tinha, achavam na farmácia. Antes de levantar, o homem pergunta:

 — Quanto lhe devo Doutor?

 — Não é nada não.

 — E os remédios?

 — Também são de graça.

 — Então, Deus lhe pague.

 A mulher emenda:

 — E Nossa Senhora há de proteger o senhor e toda sua família, dar vida, saúde e felicidade.

 — Amém. Muito obrigado.

 Doutor Sebastião faz uma recomendação final:

 — É bom reforçar a alimentação, comer bastante couve e, se puder, um fígado de boi de vez em quando. A senhora tolera bem o fígado?

 O marido, uma vez mais, é quem responde:

 — Quá o que, Doutor, danada de ruim de boca, coitada. Luxenta pra comer que só ela.

 O médico insiste:

 — Mas é importante forçar um pouco. Ajuda o efeito do remédio. E avisa: “[**Mais um**](https://mercadocomum.com/mais-um/)a coisa, hein: dentro de uns três meses, terminando a receita, voltem de novo. Aí a gente dá outra olhada, muda algum medicamento, acompanha a situação”.

 O casal sai, muito agradecido e menos encabulado. Na farmácia, ele conta o dinheiro e paga o que o caixeiro lhe cobra pela injeção. O rapaz explica que é na veia, o homem diz que o doutor já tinha falado, o compadre aplicava.

 Meses depois o médico encontra na rua o marido da cliente.

 — Dia, Doutor. – o homem cumprimenta.

 -— Bom dia. Como vão as coisas?

 -— Tenteando: meia pedra, meio tijolo.

 — O senhor sumiu, não apareceu com a patroa.

 — É. Não deu jeito não senhor.

 — E como é que ela vai passando?

 — Ah, Doutor, Deus chamou a pobre coitada.

 Sem graça, o médico dá os pêsames ao viúvo e pergunta o que houve, como é que foi.

 —A gente ia matar porco de manhã cedo, ela dormiu animada, gostava demais daquela função, gente ajudando, casa cheia.

 —E aí?

 —Aí, Doutor, quando acordou, tava morta.

 — Mas ela tomou os remédios?

 — Quase que a receita toda.

 — E chegou a sarar?

 — Sarar, mesmo, ela não sarou não senhor…

 Olha bem o médico e remata:

 — …mas, graças a Deus, morreu bem melhorzinha

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