Carlos Frederick Gontijo Teixeira*
Conheci o Bruno Avelar antes dos grandes palcos do Poder do Network. Trabalhei ao lado dele quando, apesar de o evento já ter nascido grande, a empresa por trás dele ainda funcionava de forma improvisada dentro da sua casa. Entre planos que pareciam impossíveis, discussões, aprendizados e muitas conexões, tive a oportunidade de conhecer de perto um Bruno que talvez nem todos tenham conhecido.
Quando me tornei CFO do Poder do Network, o Poder do Network ainda não precisava de um CFO. Eu já conhecia o Bruno socialmente. Tínhamos amigos em comum e, além disso, morávamos muito perto um do outro em Orlando, na Flórida. Desde os primeiros contatos, uma característica dele me chamou muito a atenção: ele era extremamente sociável e transitava com uma facilidade impressionante entre pessoas ricas e famosas.
E, talvez, o que mais me intrigasse fosse justamente o fato de ele estar longe daquele estereótipo do playboy socialite.
O Bruno era gordinho, careca, não se vestia particularmente bem e, certamente, não correspondia ao que normalmente se imagina quando pensamos em alguém que circula com tanta naturalidade naquele meio. Mas bastaram algumas visitas à casa dele para eu começar a cruzar com pessoas como César Menotti e Fabiano, Carolina Dieckmann, Rubinho Barrichello, entre tantas outras.

Ele simplesmente sabia se relacionar com as pessoas.
Entre os empresários de seu círculo estava Fábio Ruiz, para quem eu já havia trabalhado na área financeira. Fábio aconselhava o Bruno nos negócios e foi também um dos primeiros palestrantes do Poder do Network.
Foi através de um convite dele que, em 15 de janeiro de 2022, participei da primeira edição do Poder do Network, em Orlando.
Naquele dia, eu estava ali como mero convidado. O que eu não sabia era que havia uma segunda intenção naquele convite: Fábio queria que eu conhecesse o projeto porque havia sugerido meu nome ao Bruno.
O evento já nasceu grande. Aquela primeira edição reuniu cerca de 1.400 pessoas. Mas a empresa por trás daquele palco ainda era outra história.
Pouco depois, recebi a proposta para assumir a área financeira do Poder do Network. Ou, como o Bruno gostava de dizer, para ser o CFO do Poder do Network.
A pompa do título era inversamente proporcional à estrutura da empresa. Não havia funcionários na folha de pagamento. A empresa era recém-constituída. O escritório funcionava de maneira improvisada dentro da casa do Bruno. Quando cheguei para trabalhar, mal havia um lugar adequado para eu me sentar e, o laptop que me deram, era emprestado da própria família dele.
Lembro que pensei: “Meu Deus, o que foi que eu fiz?”
Eu havia deixado outro emprego para estar ali. O Bruno, inclusive, tinha me oferecido uma remuneração competitiva para me convencer a fazer aquela mudança. Talvez eu tivesse confiado demais na credibilidade que Fábio me passava.
Mas não demorou muito para eu começar a entender o Bruno.

Hoje, quando penso naquele título de CFO — que, convenhamos, de CFO tinha muito pouco naquele momento —, não acho que fosse uma tentativa de me enaltecer. Acho que dizia muito mais sobre a maneira como o Bruno enxergava aquilo que estava construindo.
Para ele, aquela empresa seria grande.
Não era exatamente uma expectativa. Era quase uma certeza.
O futuro já tinha acontecido na cabeça dele
O Bruno era obstinado pelo que fazia. E praticamente todo o seu comportamento era orientado por uma convicção absoluta de que aquilo daria certo.
Ele assumia compromissos que eu considerava malucos. Fazia planos mirabolantes que dependiam de pessoas que ainda não estavam envolvidas com o projeto. Às vezes, de pessoas que ele sequer conhecia. E falava sobre aquilo como se já estivesse combinado.
Eu olhava para as planilhas, para a estrutura que tínhamos naquele momento e para os recursos disponíveis. O Bruno olhava para alguma coisa que, aparentemente, só ele conseguia enxergar. Para ele, seus planos não pertenciam exatamente ao futuro. De alguma forma, já estavam materializados
Isso me aterrorizava.
E, ao mesmo tempo, me impressionava muito.
Com o crescimento do Poder do Network, comecei a perceber que havia método por trás de pelo menos uma parte daquela aparente loucura. O Bruno acordava pensando basicamente em duas coisas: no próximo Poder do Network e em quem precisava conhecer para fazer aquele próximo evento acontecer.

Foi convivendo com ele que pude observar aquilo que, na minha opinião, era seu maior talento: a capacidade de construir conexões intencionais através do servir.
O Bruno identificava alguém de quem queria se aproximar. A partir daí, procurava entender aquela pessoa: seus interesses, aquilo de que gostava e, principalmente, seus problemas. Depois colocava sua rede para trabalhar.
Se pudesse fazer uma conexão estratégica, fazia. Se descobrisse um presente que tivesse significado especial para aquela pessoa, encontrava uma maneira de consegui-lo. Se houvesse um problema difícil que pudesse ajudar a resolver, mobilizava quem fosse necessário. É importante dizer que havia intenção nisso. O Bruno sabia de quem queria se aproximar.
Mas havia também uma diferença importante entre o que ele fazia e simplesmente se aproximar de alguém para pedir alguma coisa. Antes de tentar extrair valor daquela relação, o Bruno procurava gerar valor para ela. Um de seus bordões resumia muito bem essa filosofia: “Seja interessante sem ser interesseiro.”

Uma ligação
Lembro de um episódio que talvez explique isso melhor do que qualquer teoria. O Poder do Network havia acabado de lançar a mentoria do Bruno. Certo dia, um dos mentorados foi até nosso improvisado escritório para dizer que queria cancelar. O Bruno perguntou o motivo. Ele respondeu que havia entrado na mentoria principalmente para fazer networking. Tinha conhecido pessoas interessantes, mas, como empresário do setor de higiene pessoal, não havia feito nenhuma conexão que considerasse realmente estratégica para seu negócio.
O Bruno perguntou: — Com quem você mais gostaria de se conectar? A resposta foi José Carlos Semenzato. O empresário explicou que já havia tentado se aproximar dele. Entrara em uma confraria de vinhos da qual Semenzato participava, frequentara alguns dos mesmos ambientes, mas nunca tinha conseguido efetivamente conversar com ele.
O Bruno pegou o celular. Ali, na frente dele, fez uma chamada de vídeo para Semenzato e conseguiu uma reunião para seu mentorado. Eu não sei dizer se aquela reunião resultou em algum negócio entre os dois. Sei, no entanto, que aquele mentorado que tinha ido até lá para cancelar acabou se tornando posteriormente palestrante e sócio do Poder do Network. Esse era o Bruno!
Depois te explico
Quem conviveu com ele provavelmente consegue visualizar a cena. O dedo indicador esticado horizontalmente, fazendo algumas voltas no ar. No rosto, aquela expressão de quem estava aprontando alguma coisa. E então: “Depois te explico.”
O bordão ficou conhecido entre as pessoas que o acompanhavam e foi muito lembrado nas homenagens feitas a ele logo depois de sua morte.
Eu ouvi alguns “depois te explico” ao longo do caminho. Um deles merece ser contado.

Certa vez, o Bruno descobriu que uma pessoa de quem ele queria muito se aproximar tinha o desejo de construir uma quadra de beach tennis em sua casa, em Orlando. O Bruno já tinha uma quadra em casa. Como trabalhávamos praticamente lado a lado, em algum momento comecei a ouvi-lo pedindo a um empreiteiro um orçamento para construir outra. Não fazia muito sentido. Depois vieram as negociações.
O Bruno tentava reduzir alguns milhares de dólares do orçamento oferecendo, em troca, divulgação da empresa do empreiteiro em seu evento e no Instagram. Negociava mais um pouco oferecendo a indicação de um cliente. Em seguida, ligou para outra pessoa para saber se ela não queria “inteirar” o restante do valor. Em contrapartida, o Bruno garantiria que o doador também se aproximasse daquela pessoa que receberia a quadra. Era uma pequena operação sendo montada diante de mim. E, diante da minha evidente dificuldade para entender o que estava acontecendo, veio o dedo girando no ar: — Depois te explico.
O Bruno conseguiu construir a quadra. Mais importante para esta história: tornou-se amigo muito próximo daquela pessoa que, posteriormente, também se tornou um dos palestrantes que mais participaram das edições do Poder do Network.

Seria ingênuo dizer que o Bruno fazia essas coisas sem interesse algum. Havia interesse. Havia estratégia. Muitas vezes havia um objetivo bastante claro. Mas acho que o outro bordão dele ajuda a explicar a diferença: “Seja interessante sem ser interesseiro.”
O interesseiro desaparece quando consegue aquilo que queria.
O Bruno, não.
Vi várias daquelas aproximações inicialmente intencionais se transformarem em relações genuínas. Pessoas de quem ele queria se aproximar passavam a frequentar sua casa, tornavam-se amigas e permaneciam em seu círculo, muito depois de qualquer interesse profissional imediato.
Talvez essa fosse uma das razões pelas quais ele conseguia fazer aquilo com tanta naturalidade.
“Muitas quantas?”
Durante aquele período, curto mas muito intenso, aprendi algumas coisas com o Bruno. Ele não tinha uma grande formação acadêmica formal. Muito do que sabia parecia ter vindo da própria vida, dos negócios e, principalmente, de sua capacidade de observar pessoas.
Uma das lições que ficaram comigo nasceu de uma coisa aparentemente banal.
Às vezes eu chegava para ele e dizia:
– Bruno, tem muita gente reclamando disso. Ele me interrompia: Muita gente quanto? Eu insistia: – Muitas pessoas Bruno. E ele, calmamente: – Eu quero saber o número. Muitas quanto? Quando eu finalmente respondia: – Três,,, quatro pessoas. Ele dizia: – E desde quanto três ou quatro são muitas pessoas? Parece simples, mas nunca esqueci.
Era curioso porque o mesmo homem capaz de planejar um evento contando com a participação de alguém que nem conhecia, ainda não aceitava que eu transformasse três reclamações em “muita gente”. O Bruno acreditava facilmente no improvável. Em argumentos vagos nem tanto.
Nem tudo se aprende na faculdade
Naturalmente, aquele jeito de fazer as coisas também tinha um custo. Minha formação e minha experiência profissional sempre me levaram a olhar uma empresa através de controles, processos, sistemas e governança.
O Bruno tinha pouquíssima paciência para isso.
O que eu chamava de método, muitas vezes ele chamava de burocracia. O que eu enxergava como controle, ele podia enxergar como algo que simplesmente tornava a empresa mais lenta. Isso gerou inúmeros embates entre nós. Alguns muito mais acalorados do que deveriam ser. Em pelo menos uma ocasião, estivemos perigosamente perto de deixar de resolver nossas diferenças apenas com palavras.

Em uma dessas discussões, depois de eu provavelmente ter usado todos os argumentos técnicos que conhecia, o Bruno me disse: — Nem tudo se aprende na faculdade. E aquilo acabava com a minha argumentação. Porque, por mais anos de estudo que eu tivesse e por mais que acreditasse naquilo que estava tentando implementar, havia um fato inconveniente diante de mim: Era ele quem estava fazendo aquilo acontecer.
Com todas as suas imperfeições, improvisos e resistência aos processos que eu tentava criar, o Poder do Network crescia. Só fui descobrir muito tempo depois o que o Bruno realmente pensava sobre parte do trabalho que eu havia feito.
Quando encerrei minha atuação executiva no Poder do Network ainda permaneci, por aproximadamente três meses, ajudando a empresa como consultor de gestão. Nosso relacionamento profissional já estava chegando definitivamente ao fim.
Na véspera de um Natal, o Bruno parou na porta da minha casa. Ele estava entregando alguns presentes. E me disse:
— Estou presenteando apenas as pessoas que fizeram a diferença. E você fez com que o Poder do Network se tornasse uma empresa.
Não me lembro de ter recebido dele, durante todo o tempo em que trabalhamos juntos, reconhecimento mais significativo do que aquele. Principalmente porque veio do Bruno.
O que ele fez comigo
Pouco tempo depois de começar a trabalhar com o Bruno, contei a ele que tinha vontade de empreender. Não sabia exatamente quando faria isso. Sabia apenas que, em algum momento, queria construir meu próprio negócio.
Enquanto isso, fui sendo exposto ao mundo que existia em torno do Poder do Network.
Viajei com o evento por diferentes estados americanos. Conheci palestrantes, centenas de mentorados, empresários e empreendedores brasileiros espalhados pelos Estados Unidos. E comecei a enxergar uma oportunidade.

Percebi que poderia fazer por outros empresários parte daquilo que fazia pelo Bruno: ajudá-los com gestão financeira, compliance, controles e governança.
Em determinado momento, a ideia deixou de ser apenas vontade de empreender. Eu tinha um conceito de negócio. Contei para o Bruno. E ele fez exatamente aquilo que sempre fazia.
Pensou em alguém.
Imediatamente entrou em contato com uma contadora de seu relacionamento e, à maneira do Bruno de resolver as coisas, praticamente “fez” com que ela se tornasse minha sócia naquele novo empreendimento.
Depois vieram os primeiros clientes.
Alguns foram indicados diretamente por ele. Outros surgiram dos relacionamentos que eu havia construído enquanto trabalhava no Poder do Network. Alguns deles continuam comigo até hoje.
É impossível saber qual teria sido minha trajetória se eu não tivesse aceitado aquela proposta e chegado naquele escritório improvisado, sem ter direito nem a uma mesa adequada e usando um laptop emprestado.
E não pretendo atribuir ao Bruno escolhas e conquistas que, naturalmente, também dependeram de mim e de tantas outras pessoas.
Mas existe algo que posso afirmar.
Durante anos, o Bruno falou sobre o poder do network. Ensinou pessoas a construir relacionamentos, aproximou empresários e colocou gente que provavelmente jamais se encontraria sentada à mesma mesa.
Eu poderia terminar esta homenagem tentando explicar por que acredito que ele estava certo.
Não preciso.
Hoje, quando olho para a empresa que fundei, para algumas das pessoas que participaram de sua origem e para clientes que permanecem conosco até hoje, encontro conexões que começaram naquele pequeno escritório improvisado na casa do Bruno.
Talvez eu tenha demorado alguns anos para perceber.
Mas, no final, o Bruno fez comigo exatamente aquilo que passou a vida ensinando aos outros.
Depois te explico.
*Bruno Avelar (1985–2026) foi um empresário, palestrante, escritor e influenciador brasileiro natural de Belo Horizonte, conhecido por idealizar o projeto O Poder do Network voltado a conexões profissionais e empreendedorismo estratégico. Morou fora do Brasil por mais de 20 anos, com passagens por países da Europa e pelos Estados Unidos. Participou do programa Operação Mesquita no SBT e atuou como apresentador oficial dos leilões beneficentes do Instituto Projeto Neymar Jr
É autor de livros como Página 67, Conectando Almas e Descubra seu Nível de Maturidade.
Nas redes sociais, onde reunia mais de 650 mil seguidores, Bruno costumava compartilhar registros de viagens, palestras e encontros com empresários e celebridades. Bruno Avelar morreu em 22 de setembro de 2026, aos 41 anos, em um acidente de helicóptero na Serra Catarinense (região de Urubici), tragédia que também vitimou o cantor sertanejo Rick (da dupla com Renner) e outros ocupantes.

*Carlos Frederick Gontijo Teixeira é sócio fundador da HUBBIZ & Potenciano CPA

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