Enchentes no RS: os seus impactos e uma avaliação preliminar na produção e exportação de grãos

Cristiano Oliveira*

As atuais enchentes no estado do Rio Grande do Sul estão gerando um impacto significativo não apenas na produção e exportação de grãos do Brasil em 2024, mas também na economia nacional como um todo. Desde o dia 27 de abril, o estado tem sido assolado por chuvas persistentes e volumosas, com algumas áreas registrando números extraordinariamente elevados. Os Vales, o Planalto e a Encosta da Serra já ultrapassaram a impressionante marca dos 300 mm em apenas uma semana. Em Bento Gonçalves, situada na Serra Gaúcha, os pluviômetros marcaram um espantoso acumulado de 543,4 mm. Enquanto isso, na capital Porto Alegre, em um curto período de três dias, foram registrados 258,6 mm de chuva, equivalente a mais de dois meses da precipitação habitual. Esses eventos climáticos extremos estão desencadeando uma série de desafios para a região, com potenciais repercussões que se estendem além das fronteiras do estado, afetando os mercados nacionais e que podem abalar inclusive a estabilidade econômica do país.

As intensas chuvas resultaram no transbordamento dos principais rios do estado, além do lago Guaíba, que banha a região metropolitana. No último domingo, o nível do lago atingiu uma marca histórica de 5,33 metros, superando os 4,76 metros registrados na enchente de 1941, que até então era a enchente mais grave já documentada. Os efeitos dessas enchentes são particularmente preocupantes para a produção de grãos, pois afetam tanto a fase de colheita, que ainda não foi concluída, quanto a logística de transporte, especialmente para os produtos destinados à exportação, pois o acesso ao Porto de Rio Grande está dificultado por vários bloqueios parciais e totais nas principais rodovias que levam ao porto mais importante do estado.  

As consequências das intensas chuvas que resultaram no transbordamento dos principais rios do estado são evidentes quando consideramos a cadeia de suprimentos de produtos agrícolas. Iniciando pelo arroz, que embora não seja um produto com grande volume de exportação (menos de 10% do arroz produzido no Brasil é exportado), pode enfrentar dificuldades para chegar às regiões centrais do país devido à interrupção da principal via de acesso à região sul do Rio Grande do Sul, a BR 116, que está totalmente bloqueada em vários trechos próximos ao município de Eldorado do Sul. 

Ao mesmo tempo, a colheita de arroz no estado, que é o principal produtor no Brasil, enfrenta sérios desafios devido às intensas chuvas recentes, representando uma ameaça significativa para as rendas dos orizicultores. Até o momento, o estado colheu 78% da área destinada ao cultivo de arroz na safra 2023/2024, abrangendo aproximadamente 709 mil hectares de um total de 900 mil hectares plantados. No entanto, cerca de 200 mil hectares, correspondendo a 22% da área total, permanecem não colhidos, representando um potencial de perda de 1,6 milhão de toneladas do grão. A magnitude desse volume em risco é preocupante, uma vez que representam cerca de 16% da safra estimada para o país, que é de 10,5 milhões de toneladas. De modo que esses desafios combinados com os problemas logísticos geram preocupações com o abastecimento interno do país e possíveis impactos na inflação e no custo de vida das famílias brasileiras.

A colheita de milho no Rio Grande do Sul também enfrenta desafios significativos devido ao excesso de chuvas e alagamentos que têm paralisado a colheita da safra de verão (1ª safra 2023/2024) em várias regiões do estado. Até o dia 2 de maio, a colheita atingiu apenas 83% da área cultivada, conforme dados da Cogo Inteligência em Agronegócio. Com uma área total plantada de 6,7 milhões de hectares, os 27% restantes ainda não colhidos representam cerca de 220 mil hectares e aproximadamente 1,4 milhão de toneladas do grão. As perdas associadas a essa parcela não colhida ainda não pode ser estimadas com precisão, mas esse volume sob condição de risco já representa 6% da 1ª safra estimada para o país, que é de 23,3 milhões de toneladas. A situação é especialmente preocupante considerando que a colheita atingiu apenas um avanço semanal de 1 ponto percentual até o momento, de acordo com dados da Emater/RS, indicando uma paralisação quase total da atividade no estado. Esses desafios colocam em risco não apenas a safra local, mas também têm potencial para impactar o suprimento nacional de milho, com possíveis repercussões nos mercados interno e externo.

O Rio Grande do Sul, o segundo maior estado produtor de soja no Brasil, também está enfrentando dificuldades decorrentes do excesso de precipitações, que têm retardado as atividades de campo e gerado preocupações sobre a qualidade das lavouras. O acúmulo de umidade tende a elevar a acidez do óleo de soja, o que pode reduzir a oferta de subprodutos de boa qualidade, especialmente para a indústria alimentícia. Segundo dados da Conab, até o momento, 90,5% da área destinada ao cultivo de soja da safra 2023/24 já foi colhida em todo o Brasil. No entanto, na região Sul, as atividades de campo estão mais atrasadas, a Emater/RS indica que, até o dia 2 de maio, apenas 76% da área havia sido colhida no estado gaúcho, uma porcentagem inferior aos 83% registrados em média nos últimos cinco anos. 

Esses números indicam a significativa redução no ritmo de colheita na região, representando um desafio adicional para os produtores locais e aumentando as preocupações sobre o suprimento e a qualidade dos produtos derivados da soja. Estimativas precisas das perdas ainda não são possíveis devido à extensão dos danos causados pelas chuvas intensas. Contudo, se sabe que esse volume sob risco representa uma parcela significativa da safra estimada para o país, que é de 147 milhões de toneladas, correspondendo a aproximadamente 5%.

Além dos desafios enfrentados durante a colheita de soja no Rio Grande do Sul, a situação é agravada pelo impacto nas exportações devido aos problemas de acesso ao porto de Rio Grande. Cerca de metade da produção de soja do estado é destinada à exportação por meio deste porto, que, embora esteja operacional, enfrenta dificuldades devido aos bloqueios na BR 116 e na BR 386, incluindo a queda de pontes, que pode demandar um tempo considerável para reconstrução. Enquanto isso, outros pontos de escoamento da produção, tal como o porto de Porto Alegre permanecem paralisado por estar submerso. Para piorar o cenário, há também o registro de falta de combustíveis em postos, o que deve atrapalhar ou pelo menos retardar os serviços de transporte no estado. 

Essa grave situação conjuntural deve prejudicar significativamente a exportação de soja, especialmente considerando que o período de maior volume de exportação ocorre entre os meses de abril e agosto. Caso o acesso ao porto de Rio Grande permaneça comprometido e o porto de Porto Alegre permaneça inativo, os produtores enfrentarão os velhos problemas de gerados pelo gargalo de armazenamento ou a necessidade de arcar com custos mais elevados de transporte e as limitações de capacidade de outros portos mais próximos, como o de Itajaí. 

Em suma, diante dos desafios enfrentados pela produção e exportação de grãos no estado do Rio Grande do Sul devido às intensas chuvas e suas consequências, é essencial reconhecer que ainda é cedo para fazer previsões definitivas sobre o impacto total desses eventos. No entanto, é crucial que todos estejam atentos ao que está ocorrendo na região, pois é altamente provável que haja repercussões relevantes em termos nacionais.

Além do aspecto humanitário, é imperativo considerar o interesse econômico envolvido, que afeta não apenas os produtores locais, mas também a economia do país como um todo. Portanto, é fundamental que autoridades, instituições e a sociedade em geral estejam engajadas e prontas para oferecer apoio e buscar soluções para mitigar os impactos adversos causados pela enchente no estado. O momento demanda cooperação, solidariedade e uma abordagem proativa para enfrentar os desafios presentes e garantir a resiliência e a recuperação do setor agrícola e da economia do estado como um todo.

*Professor Associado na Universidade Federal do Rio Grande e Head of Research na Rivool Finance.

 

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