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title: &quot;Violência na América&quot;
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date: 2013-02-01T00:00:00-02:00
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# Violência na América

José Maria Couto Moreira

 Procurador do Estado

 

 Violência na América

 

 

A expansão do fenômeno da violência na América do Norte

 tem intrigado e assustado a opinião pública mundial. Constantes

 fatos de violência brutal tem ocupado as manchetes

 do mundo civilizado. Mais recentemente, delinquentes americanos,

 moços, têm consternado a todos no noticiário ao

 agirem como livre atiradores, lançando projéteis assassinos

 a esmo contra inocentes, sempre por razões triviais, ou mesmo

 incompreendidas, no mais das vezes suicidando-se após

 atos tresloucados.

 O registro da violência na América, democrática e rígida na

 apreciação judicial de condutas infracionais, preocupa os

 americanos e sociólogos, na medida em que a prevenção e

 a repressão institucionais não tem obtido resultado.

 

 

O enunciado de Stokely Carmichael, um imigrante de Trinidad

 residente nos EUA, ativista da paz, já antecipava a crise

 de violência naquele país ao dizer nos anos 50 (hoje um refrão),

 que “Na América, à. violência é tão americana quanto

 a torta de maçãs.”

 Parece estar aí a razão, ela é antiga, está enraizada e introduziu-

 se na cultura americana como algo inadmissível mas

 integrante da natureza dos homens. Seu marco histórico

 pode fixar-se na Guerra da Independência, um longo conflito

 que se arrastou de 1775 a 1783, mais tarde repetido com as

 mesmas partes (USA e Inglaterra), cujo final consolidou a independência

 norteamericana. Sem mencionar os antecedentes

 de frequentes hostilidades entre colonos e colonizadores,

 nestes embates sanguinários (e heroicos), a alma americana

 abriu em si feridas incicatrizáveis.

 A escalada da violência reacendeu seu furor com a Guerra

 da Secessão, que perdurou de 1861 a 1865, causando um

 milhão de mortes, cujo pavio, de origem ética, era a manutenção

 da escravidão que ao Sul muito interessava em vista

 de sua economia, com base diversa da do Norte. Este teatro

 das hostilidades mostrava combatentes precários, com recursos

 bélicos escassos, mal alimentados, vestuário pobre,

 equipados com armamentos impotentes, homens descalços,

 sujeitos às doenças sem assistência, e, presos os nortistas

 afro-descendentes, frequentemente eram torturados ou fuzilados.

 A par destes enfrentamentos, surgiram sociedades

 secretas de cidadãos brancos insatisfeitos com a presença

 do negro em postos do governo, como a dos Cavaleiros da

 Camélia Branca e a Ku Klux Klan, que ceifaram milhares de

 vidas pelo ódio à etnia e, ainda, contendem pela supremacia

 do branco.

 A par destas lutas, pontificava Lincoln na presidência dos Estados

 Unidos, visando a consistência da União e a concorrente

 abolição da escravatura. Apesar de uma administração

 resoluta dos mais altos propósitos civis, o presidente foi assassinado

 por um rebelde confederado, inconformado com a

 tendência de se permitir o sufrágio ao negro.

 Igual destino trágico tiveram os presidentes James Garfield,

 seis anos após, William McKinley, em 1900, e John Kennedy

 em 1963. A sina dos Kennedy se cumpriu ainda uma vez,

 quanto o irmão Robert, certamente futuro presidente, cinco

 anos depois, em campanha, foi fatalmente alvejado por um

 delinquente de rua.

 Em 1968, outro covarde atentado feriu de morte o ativista

 político, de prestígio nos Estado Unidos, o pastor Martin Luther

 King, praticado por um opositor pelos direitos dos trabalhadores.

 Ronald Reagan, o quadragésimo presidente americano, sem

 motivo determinado, em 1981 foi também vítima de sério

 atentado, segundo o noticiário policial, por um desequilibrado.

 Em todo o planeta, dir-se-á que focos de violência se instalam

 e trazem prejuízos às sociedades locais. Sim, mas estas

 insurreições ou rebeldias ou mesmo a ação de núcleos

 terroristas assumem suas posições ideológicas, e possuem

 bases sociais, econômicas e políticas, a propósito de reivindicações,

 por vezes inaceitáveis. Na América, porém, os

 atentados contra a vida irrompem sem justificativas que pudessem

 aproximar-se, sequer, de uma iniciativa razoável ou

 consentânea à natureza do animal que pensa, esse bicho

 homem. Ela está ínsita no inconsciente, de sorte que é eventualmente

 eruptiva e pode desencadear uma ação sempre

 destruidora, a qualquer momento. É verdade, outrossim, que

 autoridades (ou os legisladores) franqueiam ocorrências até

 de carnificina porque ainda não impediram os cidadãos de

 armarem-se, tal a concepção democrática americana. Mas,

 se não estiverem esses autores armados, cometeriam seus

 desatinos por outros meios. O grau de violência de que é portador

 o americano (psicopata) torna-o infenso à pena de morte,

 castigo hoje banalizado (até nos estados que a adotam).

 As estatísticas, amontoando mortes, destruição e tortura de

 toda ordem, são frequentes, por todo o país. Temos assistido

 a assassinatos em massa em atividades colegiais ou em

 corporações, sem que para eles se apresentasse uma razão

 próxima de algo razoável, senão a simples e caprichosa

 vontade inconsciente. Três presidentes americanos não preferiram

 meios conciliatórios ou persuasivos para evitarem a

 matança de milhões de americanos e milhões de orientais:

 Trumann despejou a terrível bomba A sobre Hiroshima, numa

 calma manhã de agosto, reduzindo a cidade a pó e dizimando

 os 140.000 habitantes, entre crianças, idosos, mulheres,

 todos civis (embora a rendição estivesse sendo finalizada), e,

 numa segunda e absolutamente desnecessária e criminosa

 empreitada, repetiu o bombardeio em Nagazaki, eliminando

 80.000 pessoas, também civis; Lindon Johnson reacendeu

 a participação americana na guerra do Vietnam, quando a

 Nação perdeu centenas de milhares de seus filhos. Quanto

 a Bush, muito ironizado pelo povo, fez estrugir uma guerra

 despropositada no Iraque, absolutamente dispensável, paga

 com a morte de milhares de jovens americanos como de

 inocentes locais, pois, se o desejo do presidente era matar

 Saddam, havia outras formas, menos cruentas e mais econômicas

 de o fazer, aliás, como conseguiu seu sucessor, o

 paciente Barack Obama, ainda carregando as dores do mundo

 pelo atentado brutal contra o World Trade Center.

 Esses episódios repercutiram dolorosamente por todos os

 povos da terra, e o resgate destas feridas e destas dores

 desafia a compreensão humana. Saibam os Estados Unidos

 que estas tragédias nos chocaram a todos e pelos inocentes

 sacrificados, juntamos nossas amarguras e nosso respeito.

 O mundo faz votos de renascimento na América de um homem

 como Lincoln, aquele gigante na responsabilidade de

 dirigir a Nação e seu povo.

 

 

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