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title: &quot;Itamar Franco, o Palácio da Alvorada e Dona Sara Kubitschek&quot;
url: https://mercadocomum.com/itamar-franco-o-palacio-da-alvorada-e-dona-sara-kubitschek/
author: Carlos Alberto Teixeira de Oliveira
date: 2022-01-01T18:41:51-03:00
categories: [Destaques da Edição, Variedades]
tags: [Itamar Franco, o Palácio da Alvorada e Dona Sara Kubitschek, Silvestre Gorgulho]
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# Itamar Franco, o Palácio da Alvorada e Dona Sara Kubitschek

[![Itamar Franco, o Palácio da Alvorada e Dona Sara Kubitschek](https://www.mercadocomum.com/wp-content/uploads/2021/12/Itamar-Franco-o-Palacio-da-Alvorada-e-Dona-Sara-Kubitschek-300x191.png)](https://www.mercadocomum.com/)Itamar Franco, o Palácio da Alvorada e Dona Sara Kubitschek ***Silvestre Gorgulho ***

 Delicadeza, simplicidade e espontaneidade eram marcas do Presidente Itamar Franco. Quem convivia com ele pode comprovar. Comigo mesmo aconteceram vários exemplos. Vale relembrar um.

 Passava das 18 horas do dia 8 de junho de 1993. Uma terça-feira. Acabara de fechar minha coluna no jornal, quando a secretária da redação me chama:

 *– Silvestre, é do Palácio do Planalto.*

 Atendi. Era um velho amigo dos tempos da Embrapa, o advogado Mauro Durante, então Secretário-Geral da Presidência da República. Foi logo me perguntando se dona Sarah Kubitschek estava em Brasília. Disse que sim. Tinha estado com ela na casa de Márcia na véspera.

 *– Ótimo! Então aguarde um pouquinho que o Presidente quer lhe pedir um favor.*

 Foram dois ou três longuíssimos segundos. Um favor? Pensei comigo. Para o Presidente da República Uma nota no jornal? O que será, meu Deus? Entra o Presidente na linha e depois de um afetuoso cumprimento e lembranças passadas, diz:

 *– Silvestre, tomei uma decisão. Estou morando aqui numa casa da Península dos Ministros, mas o Henrique [*Hargreaves],* a Ruth *[Hargreaves]* e o pessoal da segurança, todos estão pressionando muito para eu me mudar para o Palácio da Alvorada. O que você acha.*

 – *Presidente…*

 – *Presidente não! Itamar.*

 *– Sim, sim Presidente Itamar… Acho uma sábia decisão. O senhor já devia ter feito isso há mais tempo. Lá é a residência oficial do Presidente da República. Vai lhe dar mais tranqüilidade…*

 *– É o que todos falam. Mas eu só vou numa condição. Não quero ser intruso. Preciso de energias positivas. Aquela foi a residência de um homem de bem, de um grande brasileiro e fico assim meio sem jeito de chegar lá no Alvorada assim sem mais nem menos. *

 *– Como sem mais ou menos, Presidente… Itamar! O Palácio é a residência oficial…*

 *– Eu sei. Mas isto tudo para mim tem um ar de mistério. A áurea do Presidente Juscelino domina o Palácio da Alvorada. Não que eu seja supersticioso. Dizem, mesmo, que no Alvorada até o piano toca sozinho à noite…*

 Sem saber onde ia dar esta conversa, eu falava imaginando mil coisas. Lembrei-me da primeira frase de Mauro Durante: “A dona Sarah está em Brasília”

 *– Presidente…*

 *– Não, Itamar…*

 *– OK, Presidente… Itamar. O que o senhor acha se eu conversar com Dona Sarah e contar desta sua intenção de ir para o Alvorada. Vou pedir para ela ligar para o senhor…*

 *– Grande ideia. Fale com ela. Se ela quiser me ligar é um prazer. Você sabe de minha admiração pelo Presidente Juscelino e por dona Sarah. JK me ajudou muito na eleição para Senado em 1974. Quem sabe ela e Márcia passam toda a manhã comigo lá no Alvorada.*

 Em vez de ligar, fui ao Memorial JK. Encontrei dona Sarah com o coronel Affonso Heliodoro e a Cirlene. Contei-lhes toda história. Muito feliz e um pouco surpresa, dona Sarah foi logo dizendo que fazia o que Presidente Itamar quisesse. Era muito importante ele ir para o Palácio da Alvorada. Depois de alguns outros comentários, concluiu:

 *– Silvestre, conheço bem o presidente Itamar Franco. Ele é uma pessoa simples, mas muito atento aos simbolismos. Ele não quer chegar ao Alvorada sozinho. Vamos fazer o seguinte, vou lá recebê-lo com “honras de Chefe de Estado e espírito de Minas Gerais”.*

 Diante da aprovação e incentivo do Cel. Heliodoro, liguei para Mauro Durante ali mesmo do Memorial:

 *– Ministro, estou aqui no Memorial com dona Sarah Kubitschek e ela ficou muito feliz com a decisão do Presidente Itamar em se mudar para o Alvorada. Ela vai lhe falar.*

 Passei o telefone para dona Sarah. Conversaram e acertaram dia e hora para ela e Márcia irem ao Palácio da Alvorada receber o Presidente Itamar.

 Assim, dia 10 de junho de 1993, uma quinta-feira, seis meses depois de ser efetivado Presidente da República, Itamar Franco se muda para o Palácio da Alvorada. Além de receber “as Honras de Estado e o espírito de Minas”, Itamar proporcionou uma das maiores emoções à dona Sarah: a eterna Primeira-Dama do Brasil havia deixado o Palácio da Alvorada pela última vez em 30 de janeiro de 1961. Há 32 anos ela não voltava à sua primeira residência em Brasília.

 Numa entrevista coletiva, Itamar e dona Sarah falam para os jornalistas. Lembro-me da primeira pergunta de uma repórter de tevê:

 *– Dona Sarah, é verdade que aqui no Palácio da Alvorada o piano toca sozinho?*

 *– Olha, minha filha – respondeu dona Sarah – este Palácio traz energias extras aos presidentes. Se à noite o piano toca sozinho, está provado o alto astral do Palácio da Alvorada. Há coisa melhor do que uma boa música neste ermo encantado do Cerrado?*

 Aplausos!

 Antes de se despedir de Itamar, dona Sarah agradeceu:

 *– Vivi um sonho, Presidente. São 32 anos sem contemplar as colunas de Niemeyer, sem entrar na [**Capelinha**](https://mercadocomum.com/capelinha/) do Alvorada e sem colher uma flor deste jardim abençoado.** *

 *silvestregorgulho@gmail.com*