Autor: Glaucia Nasser*
Quando falamos em democracia, costumamos pensar em instituições, regras e processos. Mas, em sua essência mais profunda, democracia é algo mais simples e muito mais exigente: é a capacidade de uma sociedade fazer sua riqueza material, cultural e humana circular entre todos.
Uma democracia real existe quando cada pessoa tem a chance concreta de desenvolver seus talentos, de construir sua vida por seu talento, por aquilo que conquista, de participar da criação da prosperidade comum. Onde isso não acontece, o que existe não é democracia, é apenas um sistema que administra desigualdades.
Por isso, talvez o maior drama do nosso tempo não seja apenas a pobreza material, mas uma forma mais silenciosa e perigosa de miséria: a miséria de quem já não confia na própria capacidade de realizar, de quem perde o vínculo com a honra, a ética, de quem passa a tirar do outro aquilo que não consegue conquistar por si mesmo.
Essa é a miséria que desumaniza. É quando o indivíduo se desconecta do próprio valor interior, daquilo que dá sentido e responsabilidade, e passa a agir apenas pelo cálculo do ganho. Quando isso se espalha, o tecido social se rompe. A sociedade deixa de ser comunidade e vira arena.
É aqui, na beira do egoísmo, que a democracia começa a vacilar. Quando o “eu” engole o “nós”, quando o imediato sufoca o bem comum, quando o outro deixa de ser rosto e vira meio… que nome damos a isso?
É por isso que discutir apenas política partidária pode nos afastar da verdadeira equação. A história nos revela: o que realmente define o destino de um país são seus modelos: de desenvolvimento, educação, circulação de riqueza, valorização do trabalho, integração entre regiões e estímulo ao talento.
Um país cresce de verdade quando funciona como uma engrenagem viva: infraestrutura, educação, cultura, indústria e agricultura se conectam; quando as oportunidades chegam onde antes só havia ausência; quando o desenvolvimento não se concentra, mas se espalha.
E é justamente aí que a cultura se torna central. Não como entretenimento, mas como formação de consciência. A cultura é o que ensina uma sociedade a reconhecer valor no outro, a sentir responsabilidade pelo todo, a manter viva a noção de dignidade e propósito comum.
E então, a grande pergunta é: até quando vamos continuar nos dividindo enquanto deixamos de olhar para a realidade concreta das pessoas, para a qualidade de vida que existe (ou não) no país? Até quando vamos trocar modelos por narrativas, construção por confronto, projeto de nação por guerra de versões? Quando é que, de fato, vamos nos reunir, mesmo com as nossas diferenças e orientações políticas distintas, para construir um futuro bom para todos.
Talvez o desafio não seja escolher lados, mas escolher modelos. E isso exige maturidade coletiva.

*Empresária, artista e cantora
“Os artigos publicados nesta edição são de responsabilidade exclusiva dos autores e não expressam, necessariamente, a opinião dos editores da publicação.
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