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Carcassonne – 11 séculos de cultura no sul da França

Paulo Queiroga

Pode soar estranho tratar de turismo em um ambiente que irradia um mundo de guerras e violência.

Nesta conjuntura, convém lembrar que há esperança da humanidade se tornar uma grande aldeia, unida nas diferenças regionais e nacionais. O turismo como indutor da paz e do convívio entre os povos cumpre parte desta responsabilidade.

Desembarcamos na Occitânia, rica e bela região de montanhas, planícies e praias no sul da França, fronteira com Espanha e Mar Mediterrâneo.

A 95 km da capital, Toulouse, chegamos à cidadela de Carcassonne, rodeada por muralhas construídas entre o final do século IX e início do século X para defesa contra os ataques dos normandos estabelecidos no norte da França.

Patrimônio Mundial e um mergulho na Idade Média, Carcassonne é um dos destinos mais populares da França recebendo 3.5 milhões de turista/ano.

Ao mesmo tempo que o turismo é o maior motor da economia, há um lado perverso. Situação equivalente ao que se dá na histórica Ouro Preto, em Minas Gerais e outras, ocorre em Carcassone a chamada gentrificação – fenômeno sócio econômico comum em destinos turísticos consagrados, onde os moradores são deslocados e têm suas rotinas diárias comprometidas. A cidade vira apenas uma vitrine e seus 50 mil habitantes locais são ignorados.

Mas, a quantidade de visitantes não compromete o deslumbramento que esta cidadela causa em quem a conhece. No verão é proibida a circulação de automóveis, o que cria um ambiente de domingo no parque.

O crescimento da cidade

O início de Carcassonne se dá em torno da parte alta, onde se encontram as muralhas de defesa. No ano de 1247, a cidade se expandiu para a parte baixa a Bastide Saint Louis, ligadas pela “ponte velha”, que se tornou a zona mais movimentada, onde estão os museus, praças, a Catedral, restaurantes, bares e lojas. As regiões são unidas pelo Canal du Midi, obra de engenharia do século XVII para ligar o interior da França ao mar Mediterrâneo. Ainda hoje é uma via turística navegável com 240 km de extensão.

História Terrível

Um dos fatos marcantes da História da cidade é ter sido um dos palcos da chacina dos cátaros ou albigenses (1209 – 1229) – campanha militar, liderada por nobres do norte da França, associados à Igreja Católica para submeter o sul da França à coroa francesa.

O Papa Inocêncio III convocou uma “cruzada santa” para erradicar a “heresia” na região do Languedoc. Os cátaros eram considerados hereges pela Igreja Católica, por rejeitarem os sacramentos e a rígida estrutura da Igreja.

Celibatários e vegetarianos, eles pregavam a vida ascética e seguiam uma rotina rigorosa de desapego material, aos moldes do Cristianismo primitivo. Criticavam a riqueza e a corrupção do clero, rejeitavam os batismos, a trindade e o Antigo Testamento, que viam como obra do criador do mal. Seus líderes eram chamados de “Os Perfeitos”

O resultado foi perseguição e chacina total. Conta-se que os Cruzados informaram ao Papa sobre a dificuldade de identificar quem era ou não herege na comunidade. A resposta teria sido: ”Matai a todos! No Céu, Deus separa os hereges dos fiéis”.

Após o massacre brutal, o movimento foi dizimado. Sendo esta resposta do Papa lenda ou não, a Revolta dos Cátaros, ou Albigenses (habitantes de Albis) é registrada e documentada na História como um dos mais cruéis abusos de poder da Igreja Católica no período medieval.

Atualmente, no mês de julho, a comunidade organiza o Festival Medieval Anual, onde se revive o ambiente medieval em torno das muralhas. Um espetáculo, com encenações de combates medievais, danças, banquetes e fogos.

Além de toda riqueza cultural, Carcassonne, é também a região vinícola de Languedoc – Roussillon, famosa pela produção de vinhos robustos e frutados, cultivados há 2.000 anos, desde a antiguidade romana. Roteiro imprescindível em um tour de história e cultura pela França.

 

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