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title: "A borracha e a constituinte"
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author: Nome do Admin
date: 2018-03-26T00:00:00-03:00
categories: [Crônica, z_impresso]
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# A borracha e a constituinte

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 Observando o filho fazer o para-casa, Terezinha pensa, divertida: “Esse menino é fogo na roupa”. Ele ia lendo as perguntas em voz alta, imediatamente cantava a resposta, logo passada para o papel. O que aconteceu com os Inconfidentes? Mor-reram todos. Enquanto escrevia, ia falando: “A professora não vai poder achar ruim. Depois de tanto tempo, aposto que não tem mais ninguém vivo”. Ainda bem que a mãe, vigilante, logo faz o filho esperto corrigir a resposta.

 Outra vez, foi com o Clóvis:

 – Pai, me dá dinheiro pra comprar uma borracha

 – Pede à sua mãe, Clovinho.

 – Mas não é uma borracha comum não.

 – O que ela tem de especial?

 – É toda colorida, forma o mapa do Brasil.

 – O que mais?

 – Cada estado é separado, no fim forma um quebra-cabeça.

 – E pra que você precisa de uma borracha dessas?

 – É legal demais, pai. Um monte de gente tem, eu também queria.

 – Mas a divisão do Brasil vai mudar, a Constituinte pode criar novos estados.

 – Quais?

 – Tocantins, em Goiás, o Triângulo quer separar de Minas, a borracha fica desatualizada.

 – Aí, depois que a gente souber como é que fica, pode cortar no lugar certo, dividir os estados na borracha.

 – Bobagem, Clovinho. Acho que é jogar dinheiro fora.

 – Ah, pai, mas tá na promoção: uma borracha e o corpo humano junto por uma mixaria…

 – O corpo humano também?

 – É super legal. Separa tudo, a gente pode estudar por fora e por dentro. Os membros, a cabeça, o coração, fígado, estômago. É o maior barato, cê precisa ver. O pai titubeia, mas não dá o braço a torcer:

 – Vamos fazer uma coisa, meu filho, vamos pensar melhor, depois a gente resolve com calma. Olha a cara de decepção do filho, quase cede. Mas resolve ganhar tempo:

 – Sei não, acho meio desperdiçado, podia gastar esse dinheiro com uma coisa mais útil.

 – Ah, pai, faz favor.

 – Depois a gente conversa. Preciso tomar banho e sair, senão atraso. Abre o chuveiro, respira fundo, mas o alívio dura pouco. Do outro lado da porta, Clovinho pergunta:

 – Pai, a Constituinte vai mudar o corpo humano também?