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title: &quot;A pregação desenvolvimentista de JK&quot;
url: https://mercadocomum.com/a-pregacao-desenvolvimentista-de-jk/
author: Carlos Alberto Teixeira de Oliveira
date: 2022-12-16T15:32:45-03:00
categories: [Política]
tags: [A pregação desenvolvimentista de JK, Cesar Vanucci, Cesar Vanucci Jornalista e escritor]
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# A pregação desenvolvimentista de JK

[![A pregação desenvolvimentista de JK](https://www.mercadocomum.com/wp-content/uploads/2022/12/A-pregacao-desenvolvimentista-de-JK-300x178.png)](https://www.mercadocomum.com/)A pregação desenvolvimentista de JK ***“Ele pensava nos cem anos seguintes.”***

 *(Carlos Murilo Felício dos Santos, primo de JK)*

 ***Cesar Vanucci****

 Interrompemos a narrativa sobre o comício de JK em Uberaba, anotando a extraordinária repercussão alcançada pela sua fala eletrizante, culta, rica em vibração democrática. No Largo da Matriz, cada qual na multidão se sentia mais gente, mais capaz e confiante. Então, o Brasil era ou podia ser tudo aquilo e a gente, bestamente, não sabia nadica de nada a respeito? Instante de pura magia. Ressalte-se que aquele clima de saudável e benfazejo entusiasmo acabaria, adiante, por envolver o Brasil do Oiapoque ao Chuí. O magnetismo do orador traçava impecável itinerário de trabalho, encharcado de humanismo e poderoso aceno social. E o toque lírico da palavra convincente! As tais borboletas que ele sabia como ninguém introduzir nos textos de conteúdo mais áspero. Corações e mentes iam sendo conquistados para a causa do redescobrimento do Brasil.

 O momento culminante da concentração política em Uberaba ocorreu por conta de um incrível lance retórico, acolhido em atmosfera de delírio, própria de conquista de [**Copa do Mundo**](https://mercadocomum.com/copa-do-mundo/). Tantos anos passados, as palavras acodem-me ainda com exatidão. Assim falou JK. Abre aspas. “Ao sobrevoar hoje esta maravilhosa cidade, lembrei-me de Chicago.” Fecha aspas.

 O comício acabou ali. Não deu pra segurar. Uma meia dúzia de uns três ou quatro mais ousados escalou pela frente o palanque, balançando-lhe a estrutura. Juscelino refez-se da surpresa inicial e caiu na gargalhada ao ser arrancado pra fora e carregado em triunfo diante do aturdimento dos companheiros. A cidade viveu carnaval temporão, tão ou mais animado do que o convencional.

 Exagero retórico (e bota exagero nisso) à parte, o que acabou ficando mesmo guardado na memória e no coração das pessoas, não evidentemente por causa da frase de efeito, mas por conta do contexto otimista do pronunciamento, é que estava despontando, no espaço político, um cidadão com papo novo sobre a realidade brasileira. Um homem que acreditava de verdade (e passava essa crença adiante) nas potencialidades de seu país e nas virtualidades de seu povo. Um político que não embarcava na cantilena derrotista de tantos outros que se acostumaram a enxergar os defeitos brasileiros com descomunais lentes de aumento e a denotar arrepiante conformismo com a ideia errônea, disseminada em muitos setores, de que o cidadão aqui nascido, antes de tudo, é um fraco. Um tipo apático, condenado inexoravelmente a destino desprovido de grandeza, à submissão eterna, sem perdão, a decisões de gente mais sábia, viventes de fala arrevesada d’além-mar.

 JK representava um sopro nacionalista renovador. Vinha mostrar a existência, sim, de uma luz no final do túnel. Como aconteceu em Uberaba e se repetiu em milhares de outros comícios, Brasil afora, transmitia a todos a inabalável certeza de que a obscuridade nos caminhos – passageira, circunstancial – era fruto de uma visão retrógrada do mundo e das pessoas. E não resultado de adversidades fatalísticas inapeláveis. O criador de Brasília proclamava, com convicção, ser preciso passar do discurso para a ação. Convidava os bem-intencionados a abandonarem o excesso academicista que costuma condenar as propostas sociais a um imobilismo teórico. Pedia às lideranças que deixassem de lado fórmulas estereotipadas, chavões inócuos, com que se procurava retratar, comumente, em tantos lugares, a realidade nacional, e arregaçassem as mangas de verdade, botando pra fazer. Todo mundo era chamado, na convocação daquele líder de irradiante simpatia, a ajudar a fazer o futuro com engenho e com trabalho. Muito trabalho.

 Em suma, os brasileiros se deram conta, de repente, que o cenário morno, acomodado, estava sendo revolvido por pregação revolucionária, cristalinamente democrática, inspirada em vibrantes propósitos de promoção social.

 *Jornalista e escritor

 

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