Lindolfo Paoliello conduz o leitor pelo universo da crônica
“A guerra de cada um” é o novo livro de Lindolfo Paoliello, reunindo crônicas que ultrapassam a natureza efêmera do texto jornalístico, dotando-o de força literária. Com um olhar atento para o drama humano, proporciona ao leitor uma visão concisa do contexto de décadas anteriores.
O lançamento do livro foi apresentado pela Editora Bretas/Del Rey como comemoração dos 80 anos do autor, em evento que superlotou o espaço do restaurante Parrilla 158, na Savassi,BH.
Recebido como “responsável por um reencontro de Minas com a crônica”, Lindolfo Paoliello estreou em 1981 com o livro “A Rebelião das Mal-Amadas”, um dos últimos títulos editados pela Editora Codecri, responsável pelo icônico “O Pasquim”. A partir de sua coluna semanal no Estado de Minas, Paoliello escreveu outros oito livros e participou, como convidado, de três coletâneas: “Crônicas Mineiras”, da Editora Ática (SP) e Globo Minas: “Crônicas Brasileiras,”, editada pela Universidade da Flórida (EUA) e “As cores das Palavras”, em Braile, editada pela UFMG para deficientes visuais.
Jornalista, graduado em Direito pela UFMG e especializado em Marketing pelo convênio Fundação João Pinheiro/Columbia University, Paoliello foi executivo de grandes organizações e seu escritório de consultoria de Comunicação atua há cerca de 40 anos, parte desse tempo associado à Fundação Dom Cabral. Mercado Comum o entrevistou sobre sua nova obra literária.

MC: Você passou sua vida atuando com e para as empresas, presidiu a Associação Comercial de Minas, como é compartilhar essa vivência empresarial com a atividade literária?
LP: É muito estimulante e plenamente satisfatória. São ambas atividades ligadas à comunicação e seu exercício me proporciona viver os dois lados de minha vocação: o lado do sonho, da reflexão, da formulação e proposição de ideias e o lado da construção, do fazer acontecer, que requer o exercício do convívio, sensibilização e engajamento. Enfim, a realização do propósito de ser útil.
MC: Está claro, pela sua obra, a opção por um gênero literário, a crônica. Como se deu e porque permaneceu esta opção?
LP: As circunstâncias escolhem por nós, às vezes. Ainda criança, eu costumava parar diante do rádio em que minha mãe aguardava a “novela das 6 e 35”, na Rádio Nacional. Pouco antes ou depois entrava no ar o programa que era anunciado assim: “A crônica da cidade, escrita por Oranice Franco, na palavra de César Ladeira”. A crônica pairava no universo da criança: semanalmente as revistas O Cruzeiro e Manchete publicavam crônicas de Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Henrique Pongetti. Interessante é que os nomes dos autores, por se repetirem semanalmente, é que inicialmente me chamavam a atenção. Já na adolescência, com a presença constante nos jornais diários, os textos de Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade me encantavam. Aos 15 ou 16 anos, no dia do meu aniversário, tocou a campainha da casa de meus pais e uma menina bonita entregou-me um livro de Fernando Sabino. Então a crônica me encontrou.
MC: Entende-se que a partir daí você começou a escrever, adotando a crônica como seu gênero predileto. Imagino que àquela altura já havia tomado conhecimento de outros gêneros literários e de obras de grandes autores. Nenhum deles o deixou tentado a adotá-los?
LP: Rubem Braga, que considero um dos melhores textos da literatura brasileira e o melhor cronista, era sempre cobrado por não escrever um romance. Uma dessas vezes ele respondeu que ainda estava aprendendo a escrever crônicas. Postura inerente a um autor que, consciente ou não deste dom – ele era um homem simples e, pelo que se sabe, teimosamente desprendido- escrevia com o apuro da simplicidade. Despojava de seu texto tudo o que não era essencial e dessa forma esculpiu pequenas obras primas.
MC: Você tem dito que “a crônica é o portal de entrada da literatura”. Pode explicar por quê?
LP: A crônica atrai o leitor, de início, pela sua forma e seu formato. Pode não ser tão curta quanto alguns poemas, mas ainda assim se apresenta despojada da métrica e é o mais curto dentre os textos em prosa. Não se apega a um enredo e segue leve, livre e solta. Cativa pelo humor, pela ironia, às vezes; seduz pelo lirismo, emociona pelos traços delicados da melancolia. Seu tempo de leitura pode ser o tempo de um voo de cruzeiro, a 850 quilômetros por hora e à altura de 10 mil metros acima do nível das coisas que nos entediam.
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