Alisson Diego Batista Moraes*
O ano de 2026 impõe ao Brasil uma dupla lembrança de Juscelino Kubitschek. Celebram-se os 70 anos de sua posse na Presidência da República e lamentam-se, no próximo 22 de agosto, os 50 anos de sua morte na Via Dutra, na altura de Resende, no Rio de Janeiro, durante décadas apresentada oficialmente como acidente automobilístico e hoje recolocada no campo das graves violações políticas da ditadura, depois de a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconhecer a responsabilidade do Estado brasileiro. A publicação integral dos documentos e os debates que ainda virão não diminuem a prudência necessária; aumentam a responsabilidade histórica.
O presidente Juscelino atravessou a vida pública com uma convicção: fazer o Brasil confiar em si mesmo em nome de um projeto nacional de desenvolvimento econômico, social e humano. Não por acaso, instituições dedicadas à memória histórica vêm tratando a efeméride com a importância exigida. O Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais promoverá, neste mês de agosto, o simpósio “Juscelino Kubitschek: 50 anos de ausência (1976-2026) – Projeto político, modernidade e construção da memória”, voltado ao debate sobre sua trajetória política, seu legado desenvolvimentista, sua relação com Minas, Belo Horizonte e Brasília, os efeitos do golpe de 1964 sobre sua vida pública e a formação de sua imagem na memória nacional. Este é o caminho adequado: a pesquisa sistematizada, o confronto de interpretações, com exame documental e rigor metodológico.
Justamente neste ano de memória, porém, aparecem tentativas de rebaixar o seu legado a uma sentença sumária. A imprensa mineira noticiou, semanas atrás, que um livro recente pretende demonstrar, a partir de “uma análise do ponto de vista liberal”, que “absolutamente tudo” o que JK fez atrapalhou o Brasil. Não há interpretação histórica séria quando se parte de uma condenação genérica e totalizante. Parece, antes, um panfletarismo revestido de bibliografia.
Ademais, não se trata de análise baseada no liberalismo, conceito complexo para abrigar hostilidades automáticas ao Estado. A melhor tradição liberal brasileira, de Raymundo Faoro a José Guilherme Merquior, passando por intérpretes da formação nacional como Sérgio Buarque de Holanda, jamais ignorou a realidade de um país desigual, continental, escravocrata em sua formação, tardio em sua industrialização e marcado por uma relação intricada entre Estado, sociedade e poder privado. Criticar o patrimonialismo, o arbítrio, o mandonismo e a captura do público por interesses particulares não equivale a negar a importância de um projeto nacional.

A crítica a JK que se apresenta como liberal carrega, na verdade, um ideologismo neoliberal estreito: parte da condenação prévia do Estado e interpreta a história brasileira como se o desenvolvimento pudesse nascer de uma voluntariosa abstração do mercado. O liberalismo autêntico não precisaria negar Juscelino. Deveria criticá-lo com rigor, reconhecer seus erros e, ainda assim, admitir que a sua obra política combinou a tríade: livre iniciativa, planejamento público e projeto nacional.
Juscelino não é imune a críticas. Seu governo pode ter produzido inflação, tensionado as contas públicas, recorrendo ao capital estrangeiro, e deixou lacunas sociais relevantes e não enfrentou a questão agrária na dimensão exigida por um país profundamente desigual. A opção rodoviária, embora compreensível no ambiente técnico, político e econômico dos anos 1950, também cobrou um preço alto no longo prazo. Para um país continental, a perda relativa do modal ferroviário permanece uma crítica, relativamente justa – apesar das características geográficas nacionais. O equívoco está em converter uma crítica procedente em uma condenação integral, imprecisa e, sobretudo, anacrônica.
A história econômica do período mostra que o debate era bem mais complexo. Roberto Campos, que participou da formulação do Plano de Metas e integrou o Conselho do Desenvolvimento, divergiu de JK em pontos importantes, sobretudo na política cambial, na estabilização monetária e na inclusão de Brasília como meta de governo. Mas Campos não era um adversário ignorante do projeto. Integrava a engrenagem técnica que ajudou a concebê-lo. Suas divergências se davam na perspectiva da formulação, da prioridade e do equilíbrio macroeconômico. Outra coisa, muito diferente, é decretar que “nada prestou”. Essa passagem da crítica ao anátema empobrece o debate.
Quem escreve um livro sobre um personagem dessa grandeza assume a responsabilidade maior do que a de produzir frases de impacto para alimentar a militância. Reescrever um período decisivo sem metodologia clara e deliberado alheamento ao contexto histórico é, no mínimo, perigoso. Não se pode escolher primeiro a sentença e depois garimpar os argumentos para sustentá-la. Toda revisão histórica exige comparação sem anacronismos, domínio da bibliografia, honestidade diante dos dados e, inclusive, capacidade de reconhecer fatos que contrariem a hipótese inicial. Se a conclusão já nasce pronta (“absolutamente tudo” teria atrapalhado o Brasil), a pesquisa deixa de ser investigação e se aproxima de uma peça acusatória movida por dogmatismo passional.
A expressão “ponto de vista liberal”, utilizada para apresentar a obra, precisa ser recebida com cautela. O que está em jogo não é a tradição liberal capaz de defender as liberdades públicas, impor limites ao poder, defender responsabilidade fiscal, a segurança jurídica e a economia aberta. Essa tradição poderia perfeitamente dialogar com JK, inclusive porque Juscelino Kubitscheck amais foi inimigo da iniciativa privada. Ao contrário! O que há é algo distinto: uma leitura neoliberal manualesca, avessa à complexidade histórica, incomodada com a ideia de planejamento e pouco disposta a reconhecer que a livre iniciativa, em países subdesenvolvidos e desiguais, depende frequentemente de infraestrutura, crédito, energia, logística e horizonte público. Confirma-se que o “mercado” não constrói sozinho as condições de sua própria existência. Nunca construiu.
Nenhum grande país avançou unicamente pela ação espontânea do mercado. A China combinou planejamento, investimento público, direção estratégica e abertura seletiva. A Coreia do Sul ergueu sua transformação industrial com coordenação estatal, crédito orientado e política industrial. Os Estados Unidos, tantas vezes apresentados como templo da livre iniciativa, formaram parte decisiva de sua liderança tecnológica com pesquisa pública, compras governamentais, universidades e agências de defesa. Internet, GPS, semicondutores e tecnologias associadas ao Vale do Silício não nasceram de um mercado puro e abstrato. Antes de se converterem em lucro privado, muitos riscos foram socializados pelo governo estadunidense.
Essa constatação não absolve nem condena qualquer política pública. Apenas impede a ingenuidade analítica. O Estado erra, desperdiça recursos e se deixa capturar por interesses privados; o mercado também erra, concentra poder, abandona territórios sem compromisso social, subinveste em bens públicos e transforma necessidades coletivas em oportunidades de renda. A maturidade está em discutir o melhor desenho institucional, a finalidade pública, a real capacidade do Estado e o necessário controle social e democrático. A pobreza intelectual está em tratar o Estado como sinônimo de atraso e o mercado como inteligência automática superior.
Há, nesse debate, uma contradição muito difícil de contornar: um dos responsáveis pela crítica a Juscelino ocupa função, como vice-presidente, cargo relevante no Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais. O BDMG foi criado formalmente em 1962, mas a ideia de um banco de desenvolvimento em Minas já havia sido lançada em 1951, no primeiro ano do governo Juscelino Kubitschek em Minas Gerais. A proposta era interiorizar o desenvolvimento por meio da concessão de crédito orientado, apoio à industrialização, financiamento de serviços públicos municipais e infraestrutura. O banco pertence à tradição que a crítica pretende desqualificar: fomento, planejamento, visão regional e financiamento de longo prazo.
Como paraninfo da Faculdade de Ciências Econômicas de Belo Horizonte, JK afirmou sua “decidida confiança no princípio da livre empresa”, mas deixou claro que cabia ao governo criar condições para ordenar o desenvolvimento econômico e coordenar esforços públicos e privados. Não havia, nesse pensamento, nenhum traço de estatismo tacanho, tampouco hostilidade à iniciativa privada, mas a percepção de que o desenvolvimento exige articulação. No mesmo discurso, Juscelino advertiu que nenhum governo faria obra duradoura se ficasse preso às regras ultrapassadas do laissez-faire. O presidente JK compreendia que mercado e planejamento público não eram inimigos naturais: cabia à política harmonizá-los em favor do desenvolvimento nacional.
Antes de decretar que Juscelino “nada fez de bom”, faria bem à crítica estudar a bibliografia com mais cuidado. O historiador Ronaldo Costa Couto reconstruiu JK com contextualização histórica, atenção rigorosa ao personagem e aos seus governos. O economista Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, que presidiu o BDMG, dedicou extensa produção ao tema, com milhares de páginas, documentos, discursos, dados e interpretações sobre a vida pública de JK. Pode-se discordar desses autores. O inadmissível é tratar a história de Juscelino como se começasse e terminasse numa planilha lida com os olhos estreitos do antipatrimonialismo de mercado.
A acusação de que Brasília teria arruinado o país também precisa de contextualização. Estimativas sobre o custo da nova capital variam: há cálculos que o situam em torno de US$ 1,5 bilhão em valores de 1960, algo próximo de 10% a 12% do PIB brasileiro daquele período, enquanto outros estudos apontam percentual menor. Trata-se, de todo modo, de valor relevante, e a discussão sobre oportunidade de gasto é legítima. Mas a comparação com o presente recoloca a polêmica em escala: em 2025, o Brasil gastou cerca de R$ 1 trilhão com juros da dívida pública, algo próximo de 8% do PIB; nos 12 meses encerrados em maio de 2026, os juros nominais permaneceram nessa ordem de grandeza. Ou seja: a cada ano, o país transfere ao serviço da dívida um esforço fiscal comparável, em proporção da riqueza nacional, ao custo estimado de uma das maiores obras de sua história. Brasília custou caro, mas deixou uma capital, um eixo de interiorização e um símbolo nacional. A despesa financeira contemporânea consome montante semelhante sem entregar nada ao país.
Estimativas do período indicam que o endividamento público ao fim do governo JK estava na casa de 4,5% do PIB. A comparação com os dados atuais exige cautela, porque as métricas fiscais mudaram muito desde os anos 1950. Ainda assim, a ordem de grandeza desmonta o exagero que atribui a Juscelino a origem de nossos impasses contemporâneos. Hoje, a dívida bruta brasileira supera 80% do PIB; pela métrica mais ampla do FMI, chega a 94,3%. JK deixou uma dívida “relativamente” crescente, mas deixou também patrimônio, uma nova infraestrutura, ampliação da capacidade produtiva e a modernização do país. O debate fiscal sério precisa distinguir gasto improdutivo de investimento estruturante, desequilíbrio conjuntural de legado permanente e prudência de paralisia.
Brasília permanece como o símbolo maior dessa disputa. Seus críticos a tratam desde os anos 50 como “extravagância monumental”, mas o fato é que a nova capital deslocou o eixo do poder, levou o Estado ao interior e obrigou o Brasil a reconhecer a sua dimensão continental. JK jamais aceitou a leitura de Brasília como capricho pessoal ou político. Em 1958, afirmou que a construção da capital não era o “sonho de visionário” nem vaidade de governante, mas o resultado de uma consciência geopolítica e econômica. A nova sede do poder deveria irradiar desenvolvimento para as regiões afastadas do centro decisório e incorporar ao país extensões territoriais até então mantidas à margem. É verdade que Brasília não resolveu os dilemas do Brasil profundo. Nenhuma cidade resolveria. Mas a nova capital permitiu ao país olhar para o seu próprio mapa com outra ambição e outro projeto.
Acima de tudo, Juscelino deve ser lembrado como democrata, um dos maiores que este país já viu. Assumiu a Presidência depois de uma crise política gravíssima, quando setores políticos e militares tentaram impedir a posse dos eleitos. Governou sob oposição intensa e enfrentou rebeliões militares preservando o jogo constitucional. Entregou a faixa presidencial ao seu sucessor-opositor, escolhido pelo voto. JK não governou contra a política; fez dela a arte da negociação e do consenso, com ambição patriótica e visão de longo prazo.
A memória de Juscelino incomoda porque desmente o fatalismo nacional. Sua política carregava otimismo, articulação, propósito e sentido de futuro. Não esperava que o mercado, sozinho, corrigisse carências históricas profundas; mobilizava o Estado para abrir caminho ao investimento privado, à produção e à integração. Daí a dificuldade do liberalismo privatista com sua lembrança. JK demonstra que o Estado brasileiro, quando possui projeto, pode ser mais do que máquina de acomodação e privilégios.
O Brasil contemporâneo perdeu, em grande medida, a confiança em projetos nacionais de longo prazo e confunde prudência com paralisia, responsabilidade fiscal com ausência de imaginação pública e crítica ao Estado com incapacidade de reconhecer qualquer virtude na ação estatal. Juscelino pertence a outra linhagem: a dos homens públicos que não se contentaram em administrar a escassez herdada. Sua ambição, sim, era alterar a escala do país.
Neste ano de celebração, luto e verdade histórica, Juscelino deve ser recolocado em seu devido lugar. Nem santo laico, nem vilão fiscal. Simplesmente Estadista! E foi considerado o “Estadista Brasileiro do Século XX”.
JK foi um dos maiores homens públicos da história brasileira. Seu governo teve erros, custos e contradições, mas entregou crescimento vigoroso, remodelou a infraestrutura, a industrialização, interiorização, democracia e horizonte nacional. Quem não consegue enxergar nada disso não está revisando a história, mas apenas submetendo a história a uma ideologia pequena demais para compreender o Brasil.
Por fim, se a história permite uma licença, fiquemos também com a sorte de JK. Convém fazer uma figa. Sob seu governo, em 1958, o Brasil conquistou a sua primeira Copa do Mundo, superando o trauma do “Maracanazo” ao vencer a Suécia por 5 a 2 em Estocolmo, com Pelé, aos 17 anos, apresentando ao mundo a genialidade que até hoje nos inspira. Como a Seleção canarinho volta a campo neste domingo, não custa convocar, além da tática e do talento, a boa estrela do presidente bossa-nova. Os críticos de plantão dificilmente aceitarão essa concessão: se relutam em reconhecer as virtudes do governo JK e a energia histórica do desenvolvimentismo que ele conduziu, jamais admitirão que, na política como no futebol, às vezes a fortuna também entra em campo.
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