Carlos Alberto dos Santos*
A célebre imagem de Arthur Schopenhauer da vida como um pêndulo entre a dor e o tédio parece ganhar ainda mais força no mundo contemporâneo. Se, no século XIX, o filósofo observava o desejo como motor do sofrimento humano, hoje vivemos em uma sociedade que o estimula, intensifica e reinventa continuamente.
Na lógica atual, marcada pelo consumo, pela hiperconectividade e pela exposição nas redes sociais, a “dor” pode ser associada à sensação de inadequação: nunca somos produtivos o suficiente, bem-sucedidos o bastante ou felizes como aparentam ser os outros. A comparação social cria um ambiente em que o desejo deixa de ser espontâneo e passa a ser induzido. Queremos não apenas o que nos falta, mas aquilo que nos dizem que deveríamos querer.
Quando esses desejos são momentaneamente satisfeitos, como uma conquista profissional, um bem adquirido ou o reconhecimento social, surge muitas vezes não a plenitude, mas um vazio silencioso. O “tédio” contemporâneo não é apenas ausência de estímulo, mas uma espécie de anestesia emocional diante do excesso. A satisfação perde rapidamente seu valor e é substituída por uma nova necessidade, reiniciando o ciclo.
Sob a perspectiva da psicologia social, esse movimento pendular resulta também de dinâmicas coletivas que moldam nossa subjetividade. Não sofremos isoladamente: somos atravessados por expectativas culturais, normas sociais e modelos de sucesso que orientam nossos desejos.
Nesse cenário, a dor não é apenas pessoal, mas também socialmente produzida. E o tédio, longe de ser descanso, pode se transformar em desconexão de si mesmo, levando-nos a buscar incessantemente novos estímulos para preencher o vazio. O pêndulo de Schopenhauer continua em movimento. Talvez, porém, tenha sido acelerado.
O desafio contemporâneo não é eliminar esse movimento, mas tomar consciência dele. Em vez de sermos arrastados entre a falta e o excesso, entre a ansiedade e a apatia, a reflexão pode abrir espaço para uma relação mais consciente com o desejo.

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