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title: &quot;O popular é que ficou fino&quot;
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date: 2013-07-31T00:00:00-03:00
categories: [Gastronomia, z_impresso]
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# O popular é que ficou fino

Por: Sérgio Augusto Carvalho

 

 Conversa vai, conversa vem, dois velhos e inseparáveis amigos debruçam sobre o pimentão recheado no Bar do Xumba, na rua Salinas e começam a conversa: porque o pimentão recheado só é servido em botequim e restaurante árabe e nunca num restaurante mais chique

 Nelson R. afirma que alta gastronomia não comporta comida desse tipo. Isto é, petiscos de botequim. Edson B. retruca dizendo que o que se come num botequim como o Bar do Xumba pode fazer parte de qualquer mesa independente da sua apresentação. “Você não viu essa turma de “chefs” mineiros que foram à Espanha e transformaram as comidinhas simples de Minas Gerais em pratos tão sofisticados que a dona Nelsa Trombino (Chef e proprietária do Xapuri) custou a acreditar que aquilo era comida mineira!!!”, argumentou.

 Pois é. Isto é Gastronomia, um assunto antes adormecido e que não apenas despertou a curiosidade e as discussões entre as pessoas como, também, já se propagou entre as Universidades brasileiras com cursos superiores cada vez mais concorridos.

 Afinal, a Gastronomia é uma ciência só das elites ou pode ser popular? E a “culinária”, o que vem a ser?

 Sempre que se fala em Gastronomia, a primeira lembrança que vem à cabeça é de uma cozinha toda em inox, panelas de cobre estanhado, ferro esmaltado, pratos de porcelana caríssimos, toalhas de linho, talheres de prata, garçon de fraque, bebidas finíssimas, cristais e por aí afora.

 E a comida nunca pode ser diferente de lagostas, faisões, trufas e caviar – entre outras.

 Quem prestar atenção à esta questão vai perceber que não é bem assim.

 O que vem a ser essa gastronomia a que Nelson R. e Edson B. se referem?

 Segundo o dicionário Aulete, Gastronomia é “o conjunto de conhecimentos relativos à preparação de alimentos saborosos com apresentação atraente”.

 Evidentemente, ninguém capricha pra fazer uma comida ruim (sai ruim porque não sabe fazer!). muito menos com uma apresentação suja, pobre, ridícula.

 A definição da pesquisadora Maria Lucia Gomensoro é bem tendenciosa: “Gastronomia é a arte de bem comer e saber escolher a melhor bebida para acompanhar a refeição”.

 É exagerada e até preconceituosa.

 Houaiss é curto e direto no seu ponto de vista: “Prática e conhecimento relacionados com a arte culinária”.

 Bem realista. Nada com relação a sofisticação.

 É o caso da gastronomia asiática. Na maioria dos países os pratos têm uma aparência horrível e os nativos comem com as mãos, numa cena muito pouco tolerada no Ocidente. E a comida, fora as cobras, aranhas e lagartos, é uma das mais saborosas do mundo. Uma cultura milenar que influenciou os principais centros gastronômicos do planeta.

 A culinária, por sua vez, é a arte de fazer comida. A regionalização da cozinha. Nada mais que isso. Não é um profundo conhecimento da ciência dos alimentos e bebidas e, sim, aplicação dos seus meios na preparação das refeições.

 A popularidade da gastronomia está no nosso dia a dia. Recentemente em São Paulo, os mais renomados chefs de cozinha chique paulistanos participaram de um evento chamado “Chefs de Rua”, dentro da programação da “[**Virada Cultural**](https://mercadocomum.com/virada_cultural/)”, que reuniu mais de 150 mil pessoas no centro da cidade. Foi considerado o maior evento gastronômico já realizado na cidade.

 O que foi servido: bolinhos, sandubas de todos os tipos, mexidos, galinhada, macarronada, virados, etc e tal. Uma culinária bem simples, muitas vezes rejeitada pelo publico sofisticado que, no fundo, não tem nenhuma noção do que é gastronomia.

 Quando o feijão tropeiro tornou-se uma atração à parte nos jogos do Mineirão, há uns 40 anos atrás, os donos de bar ficavam apavorados no intervalo das partidas com a quantidade de gente que se aglomerava nos balcões para levar o seu prato. A turma das Cadeiras Cativas, gente mais abonada, se virava para entrar na arquibancada e ir comer o tropeiro – a essencia da simplicidade que é a comida mineira.

 Agora, na Copa das Confederações, o Tropeiro do Mineirão virou atração turística – e assunto nas reclamações do povo que não gostou da receita atual. Na verdade, o prato servido nos principais bares do estádio perdeu as características do autentico feijão dos tropeiros da velha Minas Gerais para ganhar uma feição mais comercial.

 Não faz mal. Quando é gostoso, a turma passa por cima dos detalhes. Da mesma maneira que o pimentão vermelho do Xumba: não tem nada a ver com comida árabe, mas é tão bom que ninguém quer saber da diferença entre eles.

 Este é, simplesmente, um detalhe culinário típico da ciência gastronomica. Por que a gastronomia não pode ser popular? Na verdade, antes de ser sofisticada era uma necessidade trivial. A definição de “sofisticado” pelo dicionário Caldas Aulete diz tudo: “adulterado; artificial; que se revela afetado; que é requintado, fino”. O popular vem antes do requintado, certo?

 Então, a discussão no Bar do Xumba vai acabar como todas as outras de botequim: todo mundo está errado e ninguém está certo. Vamos beber e comer o que vier porque bom é comida boa. O resto é frescura!