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title: "A histórica vitória de Lula e os desafios do Brasil"
url: https://mercadocomum.com/2026/10/29/a-historica-vitoria-de-lula-e-os-desafios-do-brasil/
author: "Carlos Alberto Teixeira de Oliveira"
date: 2026-10-29T11:17:10-03:00
categories: ["Destaque Especial"]
tags: ["A histórica vitória de Lula e os desafios do Brasil", "Alysson Diego Batista Moraes"]
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# A histórica vitória de Lula e os desafios do Brasil

**Alysson Diego Batista Moraes***

 A vitória de Lula não foi uma surpresa para quem acompanha as tendências e avalia detidamente as pesquisas e o sentimento das ruas. No dia 8 de outubro, avisei ao amigo Lucas Silva, de Sabará: “O Lula vai virar”. Ele não acreditou muito e eu reafirmei: esta é a tendência. É verdade que algumas pesquisas na última semana ainda colocavam Flávio Bolsonaro numericamente à frente, todavia os sinais estavam claros: a rejeição ao candidato do PL crescia, enquanto a avaliação do governo Lula melhorava. Além disso, houve a maior mobilização da história recente do país.

 No levantamento do Datafolha de 22 de outubro, a rejeição a Flávio passou de 44% para 46%, ao passo que a de Lula recuou de 46% para 45%; a aprovação presidencial, por sua vez, avançou de 48% para 49%.

 O ineditismo esteve presente nestas eleições. Pela primeira vez, desde 1989, o candidato que terminou o primeiro turno atrás do adversário venceu o segundo. Na primeira volta, Flávio Bolsonaro alcançara 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. Em três semanas, a ordem se inverteu e o presidente se reelegeu com mais de 64 milhões de votos, quase 4,5 milhões a mais que o senador. Como isso se deu? O que explica Lula ter ganhado mais de 10 milhões de votos em apenas 21 dias?

 Num cenário polarizado e de espectros políticos calcificados, a campanha de Lula soube trabalhar dentro de uma margem muito estreita e conseguiu explorar, eficientemente, o desgaste do adversário. No primeiro turno, o antipetismo deu a tônica da eleição. No segundo turno, foi o antibolsonarismo que ascendeu.

 

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 Outro fator importante foi a abstenção nacional, que recuou de 21,08% para 19,22%, assim como a queda de votos nulos e brancos. Do primeiro para o segundo turno, 1,8 milhão de pessoas deixaram de votar em “ninguém” para votar em “alguém”.

 Esses números não se moveram por acaso. O motivo? A mobilização intensa. Nas ruas e nas redes. O “Exército do Lula” se tornou um *case* para a comunicação política mundial ao engajar mais de 10 milhões de pessoas em um grupo de *WhatsApp* que contava com um movimento coordenado, orientações e tarefas diárias. Não foi por acaso que na celebração da vitória, na Avenida Paulista, Lula agradeceu ao seu “general” Janones.

 A campanha de Flávio também disputou as plataformas, mas, diferente da estratégia petista-janonista, enfocou mais nos parlamentares e nos influenciadores de grande audiência, como o deputado mineiro Nikolas Ferreira.

 Territorialmente, uma vez mais o destaque veio do Nordeste, que garantiu a Lula uma vantagem regional superior a 13 milhões de votos, um aumento de 3 milhões de votos em relação ao primeiro turno, o que correspondeu a um acréscimo de 6% na região. Aqui, vale aprofundar um pouco mais para a compreensão do porquê os nordestinos fidelizaram seu voto em Lula. “O PT mantém esses votos pela manutenção da pobreza” – esta é uma sentença recorrente, simplificadora e errada. Vejamos o porquê.

 Estudos da FGV apontam que a renda domiciliar real per capita nordestina cresceu 26,7% entre 2012 e 2024, acima dos 18,9% registrados no Brasil. No mesmo período, a proporção de pessoas em situação de pobreza caiu de 56,5% para 39,4%, uma redução de 17,1 pontos percentuais. A vida do nordestino melhorou, a região cresceu, gerando mais renda e riqueza. Claro que o Nordeste ainda apresenta desigualdades profundas e renda inferior à média nacional, todavia os avanços numéricos são incontestáveis.

 

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 Vejamos outros dados. No Maranhão, por exemplo, a parcela de adultos com ensino superior completo passou de 1,9%, em 2000, para 11,1%, em 2022. Quando Lula assumiu a Presidência, em 2003, Salvador não possuía metrô em operação; inaugurado em 2014, o sistema que atende a capital baiana e Lauro de Freitas passou a contar com quase 40 km de extensão ao longo de 21 estações. Outros grandes investimentos estão sendo realizados na região como a Ferrovia Transnordestina, ainda marcada por atrasos, a bem da verdade. Fidelização do voto em Lula precisa ser compreendida à luz dessas mudanças materiais, não de explicações depreciativas.

 Não há como falar desta eleição sem falar, de novo, dos sinais que vêm de Minas Gerais. O estado síntese do Brasil acertou mais uma vez. Pela décima disputa presidencial consecutiva, nosso estado acompanha o vencedor nacional. Flávio Bolsonaro abrira vantagem de 588 mil votos no primeiro turno; no segundo, Lula teve 109 mil votos a mais que o senador: 50,43% dos válidos, contra 49,57%. A diferença entre os candidatos sofreu uma inversão de 697.925 votos. Em 21 dias, Lula ganhou mais de um milhão de votos, diante de pouco mais de 450 mil de Flávio.

 Alguns exemplos são bem paradigmáticos. Tomemos dois deles. Em Belo Horizonte, Flávio Bolsonaro manteve a liderança, mas a distância de 6,91 pontos percentuais do primeiro turno foi reduzida a apenas 1,60 pontos percentuais. Lula acrescentou quase 150 mil votos, contra pouco mais de 74 mil do senador. Em Nova Lima, a mudança foi ainda mais expressiva: o presidente passou de 25.643 votos, o que representou 42,58%, para 32.515, equivalentes a 51,67%, revertendo uma derrota de 2.107 votos em uma vitória próxima de 2.100.

 

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 As duas cidades metropolitanas ilustram um movimento importante deste segundo turno: a redução da desvantagem de Lula onde a oposição continuou majoritária, como em Belo Horizonte, e a inversão do resultado, a popular “virada”, como em Nova Lima. Uma eleição nacional se decide pela soma dessas alterações concretas. Lula venceu em 2.875 municípios e virou o resultado em 211 cidades, enquanto Flávio conseguiu a virada em apenas uma. Além disso, mesmo em muitas cidades onde perdeu, Lula reduziu a distância para o adversário.

 É precipitado e um tanto quanto exagerado transformar a vitória da centro-esquerda brasileira em uma evidência de uma suposta “primavera mundial das esquerdas”. Alternâncias de poder em países distintos resultam de processos muito diferentes: desgaste de governos, custo de vida, inflação, desempenho dos serviços públicos, crises de representação e rejeição a lideranças específicas. Todavia, não se pode ignorar que a política também se globalizou. Isto é, os tensionamentos polarizados estão ocorrendo em todo o mundo e há uma reação do campo progressista ou ao menos um freio no avanço das direitas radicais. Dois sinais comprovam isso: a péssima avaliação de Trump nos EUA e a vitória da frente ampla progressista e heterogênea “Lista dos Estudantes”, na Sérvia, impondo uma derrota histórica ao partido de direita do presidente Aleksandar Vučić.

 De volta ao Brasil, superada a disputa eleitoral, começa o problema da governabilidade. James Madison, um dos *Founding Fathers* dos EUA, no ensaio Federalista nº 51, do distante ano de 1788, falava sobre a importância de que “a ambição contrabalance a ambição”. Ou seja, na relação entre Executivo, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal, cada poder deve se vigiar e vigiar o outro. Dito de outro modo, cada instituição precisa exercer suas competências sem transformar a autonomia em poder ilimitado.

 O avanço e a influência do Legislativo federal sobre o Orçamento da União é algo grave e complexo e que precisará ser enfrentado, sob pena de o Executivo apenas “executar”, mas não governar. Lula terá de negociar com um Congresso autônomo, reconhecer a legitimidade da oposição e preservar os órgãos de controle para resolver isso. Outro desafio imenso é a descredibilidade do Poder Judiciário. Reformá-lo é importante e tanto a esquerda quanto a direita sabem disso. A questão não é mais “se”, mas “quando”.

 Além da governabilidade, outro desafio que se impõe para o presidente Lula é no campo das finanças públicas. A dívida bruta do governo geral alcançou 82,9% do PIB e os juros nominais acumulados pelo setor público em doze meses chegaram a aproximadamente R$ 1,18 trilhão. É falácia dizer que se pode transformar automaticamente a despesa com juros em verba disponível para investimento, apenas com a queda da SELIC; tampouco se pode tratar o ajuste fiscal como uma discussão restrita ao financiamento de políticas sociais. A trajetória da dívida dependerá de resultados primários, crescimento econômico, juros e capacidade de financiamento do Estado.

 A composição do orçamento estreita ainda mais o espaço de decisão do presidente da República. O orçamento público brasileiro é dos mais engessados do mundo e o Executivo possui uma margem estreitíssima de discricionariedade. Benefícios previdenciários, pessoal, transferências obrigatórias e vinculações legais comprometem parcela expressiva das receitas. Cerca de 92% das despesas primárias da União previstas no orçamento de 2026 são obrigatórias.

 Além disso, entre janeiro e agosto de 2026, o Governo Central acumulou déficit primário de aproximadamente R$ 94,9 bilhões, conforme o Tesouro Nacional. O crescimento das despesas obrigatórias reduz a flexibilidade para responder a novas demandas, mesmo quando a arrecadação aumenta. Por isso, a responsabilidade fiscal não pode se resumir a anunciar cortes indistintos: é preciso ir além e revisar despesas e benefícios tributários, avaliar as políticas públicas, enfrentar as ineficiências e estabelecer prioridades. Costumo dizer que entre as promessas e a sua realização existe um muro que se chama orçamento público. Muro maciço construído por estruturas de concreto armado com componentes jurídicos, econômicos e administrativos.

 Dito no popular: o cobertor é curto e o corpo é grande demais. As carências da sociedade brasileira são enormes. Infraestrutura logística, saneamento básico, ciência e tecnologia, segurança pública, defesa nacional, eficientização da máquina pública, educação e transição energética dependem de políticas cuja maturação ultrapassa um mandato presidencial. Portanto, o governo deve pensar em longo prazo e definir as prioridades no curto prazo. Uma estratégia de desenvolvimento compatível com a sustentabilidade fiscal requer escolhas que não cabem no antagonismo entre austeridade de um lado e a expansão indiscriminada do gasto de outro.

 Os desafios fiscais não justificam abandonar o investimento público, tampouco restringir ou eliminar direitos legítimos que dignificam o povo. Pelo contrário. O que seria fundamental mesmo não era mais um “ajuste” agora. Seria essencial algo mais profundo, a construção de uma nova estrutura orçamentária e uma estratégia do estado brasileiro para as próximas cinco décadas. Mas essa é uma outra história e, honestamente, não sei se o Brasil está realmente disposto e preparado para esta conversa agora.

 

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 Alisson Diego Batista Moraes é advogado, gestor público, filósofo, professor do IEC PUC Minas e consultor em planejamento e gestão pública. Mestre em Ciências Sociais pela PUC Minas e doutor em Ética e Filosofia Política pela UFOP, atualmente é secretário municipal de Planejamento de Nova Lima e foi prefeito de Itaguara, na RMBH, por dois mandatos. Autor de Neoliberalismo autoritário (Dialética, 2023) e O Poder do Planejamento (Appris, 2025), reúne duas décadas de experiência na administração pública. Site: www.alissondiego.com.br

 

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